SOUTO de ABRANTES em razão
administrativa, e o SOUTO-SARDOAL para o código postal dos CTT
Lembro-me
da minha avó Maria Joaquina, que das letras apenas sabia desenhar as do seu
nome, o que fazia muito bem feito e com grande precisão, me ter contado uma história
que nunca ouvi mais ninguém dar conta de a saber, precisamente, quando lhe
coloquei a questão de havendo um Souto Sardoal para a correspondência e um
outro Souto Abrantes para a cédula pessoal e demais identificações, porque não
se usou sempre a mesma designação, para
ambas as situações?
E
a minha avó contou que essa contenda dera muitas lutas desde o princípio do
mundo e só acabou em definitivo com a intervenção do corregedor e demais
juízes, que determinaram que num dado momento os homens de Abrantes e os homens
do Sardoal sairiam cada um da sua sede do concelho à procura das terras
desconhecidas em redor, munidos de canas e bandeirolas, sendo certo, que quem
chegasse primeiro marcava os limites, como terras do seu concelho.
Essa
delimitação das terras ficava dependente de uma partida à hora assinalada pelo
primeiro cantar dos galos, porque nesse tempo dos primórdios do mundo, ainda
não havia relógios.
Explicava
a minha avó, que a razão do concelho do Sardoal ter ficado tão pequeno ao
contrário do concelho de Abrantes, se devia à habilidade dos senhores de Abrantes
que segundo ela, sempre foram muito tunantes.
O que não deixa de ser curiosa e sintomática essa opinião ao tempo, do conceito
em que os fregueses tinham as gentes da vila.
E
que fizeram os senhores tunantes ?
Trataram de antecipar o canto dos galos em Abrantes, nessa aprazada madrugada.
Com
efeito, introduziram ao princípio da noite um dente de alho no cu de cada um
dos galos da vila, para que o ardor não mais os deixasse adormecer. Incomodados
com o ardor do alho, ainda antes da meia-noite, já todos os galos da cidade
cantavam sem parar. E assim, os juízes não tiveram outro remédio que não fosse
certificar essa partida dos abrantinos à descoberta e fixação das bandeirolas
da partilha e posse das terras em todas as direcções.
Em direcção ao Norte, o avanço dos bandeirantes de Abrantes foi imenso. Por pouco até teriam entrado nos
quintais do Sardoal não fosse o receio de acordar os sardoalenses. Só pararam
no rio Zêzere vedando o acesso aos sardoalenses que apesar de estarem bem mais
perto, se tiveram que contentar em ver o Zêzere de longe, confinados ao seu
cantinho.
Esta história dos “tunantes” do
Cabeço, não deixa de ser muito curiosa, e a fazer-nos lembrar de uma outra
situação dessa gente do alho no cu do galo, desta vez para se adiantarem no distrito.