CIDAS
Cooperativa de Irrigação e Desenvolvimento Agrícola do Souto
Custa perceber como é que em 1951 – meados do século XX - se consentiu e passou incólume a barbaridade de submergir um terço das melhores hortas ribeirinhas numa extensão de 60 kms de margens, só dentro do concelho de Abrantes, - provavelmente, um pouco menos de metade de todo o perímetro da albufeira do Castelo de Bode - prejudicando um conjunto de 8 mil habitantes, tantos quantos os residentes à época na freguesia de S. Vicente, que nessa altura ainda englobava Alferrarede, sem que ninguém exigisse, reclamasse ou impusesse a obrigação de ressarcir essas populações não só com a justa indemnização pela expropriação das terras submergidas, como também através de um pacote compensatório que incluísse o fornecimento da electricidade com desconto substancial nos preços do kw, para além da colocação de água à cota altimétrica do planalto, que servisse para rega e para abastecimento ao domicílio.
Nada que num município do Alaska – os EUA são outro mundo - não tenha sido tomado em conta, num “royalti” a reverter todos os anos para as populações que viram os seus terrenos invadidos pelos poços de captação de petróleo. Desde 1976, que essas populações se tornaram ricas, mediante um fundo negociado pelo então “Mayor” da cidade, Jay Hammond que todos os anos lhe vai dando dividendos assinaláveis( 50 % para um Fundo Permanente. Ali não há pobreza, nem há o perigo da desertificação, pois ninguém mais quer perder aqueles fundos de rendimentos perpétuos para todos os habitantes e filhos da terra.
Por cá, com a actuação tacanha dos nossos autarcas, nunca ninguém exigiu nada de comparável e a haver alguma negociação, pelas impunidades sobejamente conhecidas e pactuadas com a nossa miserável justiça, talvez houvesse uma minoria de “boys” a “mamarem na teta grande da barragem” ou com mordomias em nome da famíulia numa qualquer dessas conhecidas “of-shores”.
O Prof. Rosado Fernandes – que quando eurodeputado pelo CDS ficou conhecido por defender a honra do bom nome do povo português face ao insulto protagonizado por um eurodeputado nórdico, com um valente estalo nas trombas do calunioso – dizia na SIC Notícias, que acha tudo muito estranho no nosso país, onde a nossa justiça e os legítimos representantes da nação nada fazem, por mais casos estranhos de corrupção e de gestão danosa, que surjam no aparelho do Estado. Ninguém avança com medidas que ponham cobro a tantos desmandos. Onde é que se viu uma coisa assim?!
A CIDAS surgiu em 1975, um quarto de século após Castelo de Bode (1951). A Igreja e o Bispo de Portalegre e Castelo Branco (1946 a 1952), o conhecido autor da Carta Aberta a Salazar em 1958, de seu nome D. António Ferreira Gomes, nada fizeram em prol dos paroquianos do Norte do concelho de Abrantes. Nada fizeram, como ainda o dito Bispo ousou censurar e caluniar as suas gentes do Norte, sem perceber a gravidade da sua situação de mártires do maior esbulho, no tempo do Estado Novo.
Pior, só mesmo com o PDM de 1995, que restringiu a limites canalhas, que conduziriam à desertificação acelerada do Norte do concelho, restringindo para índices absurdos e criminosos, toda a construção de casas para os filhos da terra, tendo algumas das povoações ficado proibidas de construir o que quer que fosse, face à chamada taxa aedificandi zero.
No último fim de semana de Agosto de 1975 – no período política e historicamente conhecido como o “verão quente do gonçalvismo” - foi marcada uma reunião na sede da Sociedade Recreativa, por iniciativa do soutense José Martinho Victória, que tomou o encargo de fotocopiar uns avisos dessa convocatória e distribuí-los por toda a povoação, onde explicava o propósito de se constituir uma “associação de rega” entre todos os residentes do Souto e eventualmente, como depois ainda chegou a ser falado de se estender também a Bioucas e Atalaia, para através da montagem de umas electro-bombas e um depósito se ir captar água à albufeira.
José Martinho Victória não foi muito bem recebido com a sua ideia. Houve mesmo quem naquela tarde de sábado o quisesse enxovalhar desdenhando da sua ideia, pois como alguém gritou na sala com o aplauso fácil da populaça e os tiques próprios de um qualquer pobre diabo, nunca se vira uma coisa assim. E enfatizando o seu desdém, foi mesmo ao ponto de lançar esta tirada irónica: “ toda a vida a água correu para baixo, para o rio, e nunca a água correu do rio cá para cima”.
De tão aflito que ficou, por ver aquela ingratidão tomar tamanhas proporções, que o Sr. José Martinho Victória com uma humildade desarmante rebateu logo aquele patético discurso do tal “Zé Ninguém”, pedindo desculpas mas ele só se limitou a ter aquela ideia e a querê-la partilhar com todos. E voltando-se para uns industriais da construção civil ali presentes, como que apelava por socorro. Mas esse socorro não surgiu dos amadurecidos construtores. Surpreendentemente, seria um jovem com vinte e quatro anos quem se dirigiu aos presentes e corroborou a validade e a exequibilidade da ideia do Sr. José Martinho.
Mais: apontou o exemplo do que já se vinha fazendo de semelhante na zona da Serra de Tomar e chegou mesmo a comprovar a valia dessa obra, apresentando o resultado que tivera numa conversa exploratória junto a uma das empresas com experiências em captações na albufeira, nomeadamente na Serra de Tomar e Ferreira de Zêzere.
Esse jovem era eu próprio João Pico. Com a mesma oportunidade de sempre, já havia sondado a viabilidade da obra junto da empresa “ Gustavo Cuddell”, na altura com loja na Avª do Brasil, em Lisboa. E peremptório fiz saber que essa captação faria mesmo subir a água do rio para o planalto, da mesma forma que a água num poço, – e usei o exemplo muito a propósito da conhecida nora que o meu pai comprara ao fundo do quintal ao Ti João da Rosa - através de uma electro-bomba chegava a nossa casa, para os consumos domésticos. Isto também servia para ir deixando no ar, que já estava servido. Se os outros quisessem que me ouvissem e me respeitassem. Assim o fizeram. Nesse tempo havia homens com “H” e vergonha na cara. Não se vendiam aos do Cabeço.
Naqueles tempos só três ou quatro pessoas tinham água em casa, através de captações em nascentes ou poços. O meu pai era um deles. O Ti Manuel dos Santos ( o Ti Curto, avô do Manuel Traquina), o meu tio-avô, Manuel Pedro Pedreiro e o Sr. Joaquim Gomes, na sua quinta no Cimo das Vinhas, com água puxada pelo “moinho de vento”, que elevava lá bem no alto e o próprio José Martinho Victória, que puxava a água de nascente, bem perto da sua casa.
E passando da conversa para a prática propus que logo ali fosse nomeada uma comissão de cinco soutenses, de entre os presentes para que formassem a Comissão Instaladora, do que teria toda a conveniência em ser uma cooperativa, pelas facilidades fiscais e administrativas concedidas a esse tipo de empresas. É bom recordar que a iniciativa privada era olhada com maus olhos, - estávamos em pleno regime “comunista gonçalvista”, onde imperava o MFA - e só era tolerada a forma empresarial do tipo cooperativo. Era o tempo das tristemente célebres cooperativas agrícolas e colectivistas no Alentejo e na Lezíria do Ribatejo, ligadas às ocupações de terras e sob o slogan instrumental da “terra a quem a trabalha”, naquilo a que chamavam a “reforma agrária”.
Os cinco nomes mais votados, por ordem decrescente foram: 1º Manuel António Pisco, um construtor muito interventivo e com reconhecida valia técnica na actividade da construção civil, de resto ligado a todas as obras e melhoramentos na terra; 2º João Baptista Pico, que viria a redigir os estatutos da cooperativa e montado toda a parte administrativa e de gestão da exploração dessa original cooperativa; 3º Comissário Manuel Pimenta, um nome que impunha respeito, mas que por afazeres de ordem militar acabou por se afastar do processo; 4º Adelino Amélia Branco, um outro construtor com conhecimento de execução e projecto de obras; 5º José Martinho Victória, que surgiu em último lugar, pese toda a valia da sua ideia original e voluntariosa.
Seria já o próprio Manuel Pisco a comandar as “operações” a disponibilizar o seu barco e a marcar para o dia seguinte – um domingo, salvo erro dia 1 de Setembro de 1975 - uma visita ao outro lado do rio, a Vila Nova, pois já sabia que o seu amigo Manuel Branco ( genro do Ti Loureiro da Barca) estava por lá, e assim, iria mostrar a “obra” feita na captação nessa povoação da freguesia da Serra de Tomar.
Parecia mesmo algo surrealista, pelo facto daquela obra em Vila Nova, logo ali do outro lado do Souto, já ter três anos ( era de 1972 como indicava no depósito aéreo), sem que ninguém nada soubesse desse importante e tão marcante melhoramento local, que servia mais de metade da população.
Acabou por ser o Sr. Pombo, dirigente dessa Associação de Rega, quem diante da indisponibilidade do Sr. Manuel Branco, que já partira nesse domingo de manhã para Lisboa, apresentou a obra e deu todos os esclarecimentos e valores de custos. Qualquer coisa abaixo dos mil contos. Alguém logo ali deu como palpite, um orçamento acima de 1 500 contos para a obra idêntica a fazer no Souto. Alto e baixo, dava uns dez contos em média para uns hipotéticos 150 regantes.
A segunda reunião da cooperativa estava aprazada para o dia de Todos os Santos, novamente na sede da Sociedade Recreativa. E nesse dia, o Sr. José Martinho, por sua extemporânea iniciativa – um aspecto que muitos lhe censuravam, com alguma razão, por exemplos conhecidos – resolveu surpreender todos os demais com a presença de uma “delegação” do chamado Instituto da Reforma Agrária.
No caso, eram três ou quatro militares com cabelos compridos e sem divisas ou galões nos seus camuflados, que se intitulavam membros coordenadores do dito IRA – as iniciais do tal, Instituto da Reforma Agrária.
Um pouco a contra gosto, lá me sentei na mesa com os outros três membros da Comissão Instaladora (o Comissário Pimenta já não esteve presente, por indisponibilidade de ordem militar, pois julgo que teria ido numa comissão de serviço) e os quatro elementos militares do IRA. Sublinhe-se por curiosa ironia, que as iniciais “IRA”, eram ao tempo a conhecida designação do “exército revolucionário da Irlanda”, que bastante luta vinha dando à Inglaterra.
Os membros do “IRA” ali no Souto, pouco ou nada adiantaram. E a dado passo, até suscitaram um sururu que esteve prestes a fazer ir tudo por água abaixo. Afiançavam os ditos militares guedelhudos, que o IRA só apoiaria essa captação, na condição da obra englobar todas as povoações da freguesia, que nesse tempo se estendia até às Fontes e ao Carvalhal. Ora, na desadequada proposta dos inexperientes militares do IRA, aquilo era um atestado de óbito da captação, anexa àquela prévia declaração de guerra. Esperar pela mobilização das gentes das Fontes e do Carvalhal era qualquer coisa que escapava à vontade de todos nós e o montante de investimento a envolver, - quando ainda não se falava em dinheiros da CEE - fazia desde logo, temer pelo pior dos cenários.
As pessoas ali presentes levantaram-se de imediato, e já caminhavam para a porta, quando eu me atravessei à frente deles de braços abertos a pedir que tivessem calma e esperassem pelo que ainda havia para dizermos, sem mais intervenção dos ditos militares, que eu logo fui convidando a saírem da sala, porque a partir dali, como não deixei de sublinhar, - suscitando o espontâneo, oportuno e ruidoso aplauso de todos – caberia ao povo do Souto chamar a si, a condução dos trabalhos e orientar a obra, como tantas vezes fizera, mesmo contra a vontade dos governantes do “fascismo”. E logo o Sr. José Martinho, que antes clamava pelo MFA, imediatamente gritou, que o “ Povo é quem mais ordena”.
Caricato, o maior proprietário rural – não exageraria, se dissesse que ali no momento ele até poderia ser considerado como o maior “latifundiário” da terra – a convidar o MFA para a reunião e logo de seguida a pugnar pelo slogan mais revolucionário daqueles tempos, de que o “povo é quem mais ordena”!
Pela minha parte, voltei à mesa e expliquei o passo que faltava dar. Sublinhei o facto, de que eu até já tenho água em casa. Mas não queria deixar de ajudar para que todos tivéssemos água em casa ou no quintal para rega e gastos domésticos, o que ia dar ao mesmo e todos compreendiam muito bem. A água era mesmo um bem precioso!
A água armazenada na albufeira, à vista de todos nós, era como que uma má e cruel sina, que nos perseguia há cerca de 25 anos. Para a fazermos subir até às nossas portas precisávamos de cerca de 2 000 contos. Era este o orçamento que já havia feito, uma vez que já estava de posse dos valores das electro-bombas e canalização e dos custos estimados dos dois depósitos a instalar: um aéreo para a dar pressão nos canos para a distribuição e outro subterrâneo para reserva de alimentação ao depósito aéreo.
Mostrei a todos os presentes um maço de 100 fichas A6 ou A8, compradas na Papelaria da Moda, onde esperava que cada um escrevesse o seu nome, a morada, o nº de telefone e o valor de quota que estariam dispostos a entrar para comparticipação da obra. Apelei à generosidade de todos e que olhassem bem para aquela oportunidade única que tínhamos à nossa frente. Apontei os 10 contos como uma verba mínima, na esperança que alguns subissem mais a parada e logo ali pudéssemos verificar que tínhamos dinheiro para o nosso projecto colectivo.
Todos foram escrevendo os nomes nos pequenos cartões. A restante equipa da Comissão Instaladora começou a recolher e a escrutinar os valores inscritos. Chegámos logo aos 1.300 contos com cerca de 100 dos possíveis 150 associados (tomado em conta o nº de chefes de família).
A Comissão concordou que havia pés para andar para a frente: a CIDAS iria ser uma realidade. E foi.