As diferenças destes autarcas são muito estreitas, e dá-se o caso de surgirem, por vezes demasiadas coincidências nos seus propósitos.
E como são muito parecidos - abstraindo a análise de carácter de cada um deles, onde haverá diferenças assinaláveis, com claras vantagens para os mais antigos - a grande coincidência reside num facto político comum a todos eles: foram eleitos!
Factores comuns a todos eles: encherem os serviços da câmara e demais estruturas municipais com mais funcionários, constituindo atrás dessas admissões, enormes gastos de funcionamento, com inevitáveis atropelos de serviços, guerras de hierarquias e competências e "prateleiras douradas", que mais endividavam a autarquia, absorvendo meios que acabaram desviados de outras finalidades, bem mais necessárias.
Esta varredura, de 50 % das chefias, que irá obrigar a dispensar outros quadros intermédios e mesmo os mais baixos na administração local, - a realizar-se como a troika não deixará de exigir, com quase toda a certeza - irá finalmente, acelerar um novo conceito minimalista e sustentável do poder local.
O poder local pós 25 Abril, para todos os efeitos, nunca deixou de ser uma cópia ainda mais imperfeita do poder autárquico estruturado no Estado Novo. Cargas burocráticas que oneraram até ao limite do intolerável, todas as iniciativas de desenvolvimento económico e equitativo dos municípes. Ao mesmo tempo que o cerco ao bolso dos cidadãos, os ia deixando cada vez mais fracos e indefesos.
E tal como no Estado Novo, os "beneficiários do regime" sempre se mantiveram unidos e fiéis aos seus "protectores". Havia sempre uma forma de contornar as leis apertadas. Isto é, a lei sendo igual para todos, não deixava no entanto, de tornar uns mais iguais do que outros...
Seria anedótico constactarmos quantos papéis, quantas horas de reuniões, quantos despachos com funcionários e quadros para trás e para a frente, quantas horas de serviço roubadas a um desempenho mais operacional e activo se perderam com o requerimento de um deferimento simples, que um mínimo de equidade e de respeito pelos cidadãos faria despachar na hora. Mas mesmo na hora!
Uma renda de um inquilino dos imóveis municipais, para pagar em prestações diante de uma fatalidade do municípe devedor, no valor de pouco mais ou menos 50 € pode gerar, - com o emaranhado dos encadeamentos processuais burocratizados ao exagero que todos julgamos saber - uma despesa 10 ou 100 vezes superior ao montante do infeliz inquilino.
Contem só quantos quadros superiores preenchem o pelouro da Acção Social Municipal e até irão corar de vergonha, quando o deferimento lá vem finalmente com uma pequenina benesse, eivada de enorme cinismo.
Para concedermos um prolongamento de um pagamento de 50 € a um municípe, acaba a câmara municipal por "ocupar" dezenas de horas de funcionários, pagas por valores 10 a 100 vezes superiores à dívida ou à concessão pretendida pelo pobre municípe.
Isto acabou. Vai ter que acabar, porque não há mais dinheiro para sustentar essas bizarrias!
Ora, todos os autarcas pós Abril em Abrantes, sempre se pautaram por este raciocínio que Mário Soares acabou por confessar há dias, resumindo nesta conclusão:
-"o dinheiro aparecia sempre!"
