Desde o post 4.225 de 6 Novº último, que se vêm pub licando alguns textos das "HISTÓRIAS do SOUTO"
Os interessados poderão procurar os mesmos, no arquivo deste blogue.
Textos da autoria de João Baptista Pico
Quah! Quah! Quah! – foi assim nesta forma inocente, de fazer por fazer, que as varinas entoaram com feliz oportunidade os seus pregões no corrupio das novas construções primeiro por Campo de Ourique e Estrela depois pelas Avenidas Novas e bairros económicos e mais tarde pela grande urbanização de Alvalade ao Areeiro, deslumbradas com o crescimento da sua clientela.
- Quah! Quah! Quah! – foi assim que as varinas viram uma forma mais objectiva para atraírem esses clientes chegados a Santa Apolónia com destino às obras que despontavam por esses novos bairros de Lisboa, contabilizando com inegável mais-valia, a rota desse novo périplo alfacinha.
- Quah! Quah! Quah! – foi assim, que as varinas fizeram descer à porta das obras essas multidões de trabalhadores, das avenidas novas, que à conta de meia dúzia de sardinhas ou de um chicharro, animavam o negócio, até então mortiço e pouco rentável, enquanto confinado a becos e vielas antigas.
Pese todo o dinheiro ser pouco para juntar de volta à terra, os homens sempre acabavam por comprar o peixe. Era o alimento ali mais à mão, quando a Guerra Civil e a II Grande Guerra não deixaram de impor algumas restrições e acima de tudo, o implacável racionamento.
Deixaram mulher e filhos menores na terra, debaixo de telha vã a cobrirem quatro paredes de taipa. E quando traziam os filhos mais velhos eram todos a trabalhar para ajudar a casa dos pais. Até ao dia em que esses filhos encetavam namoro pela terra e começavam a pensar construir a sua casa própria. Todo o dinheiro era pouco, o que tornava os trabalhos mais disputados entre os operários, temendo receberem ordem de despedimento, no final de cada semana, aos sábados, por volta das cinco da tarde.
Depois, construir casa própria era uma exigência, muito comum nos pais da noiva, usada quase como contrapartida à concessão da bênção ao casamento da filha. A experiência dos pais também se revelava nesse aspecto, com grande sabedoria de vida. Pois a construção da casa na terra era talvez, depois dos laços de afinidade familiar, o melhor meio de comprometimento para homens condenados a uma labuta de vida entre as obras em Lisboa e a vinda à terra, onde era de bom tom ter uma casa para ficar com a mulher. E onde a mãe dos filhos do casal pudesse ficar à espera do marido, quanto mais não fosse para poderem dormir as poucas noites possíveis, desta longa e crua vida.
Avisadamente, os mais velhos sabiam como as tentações eram mais que muitas, por becos e vielas de Lisboa. Também os mais velhos, andaram por Lisboa. E souberam como resistir à tentação dos gastos, quando sabiam que um dia teriam que ajudar nas obras das casas dos filhos. E como se tal não bastasse, ainda havia que olhar pela compra de mais um pedaço de terreno para amanho, um chão de oliveiras e um ou outro pinhal. Havia que assegurar lugar para os vindouros e o sustento para a família. Tudo isso, fruto do trabalho ingrato, duro, por vezes muito mal remunerado, mas que, ainda assim, nunca desistiam de procurar, disputar e manter ciosamente.
Acresce, que nesta história dos patos bravos, os pregões não desvendaram o maior dos encantos dessa grandeza imaterial centrada no segredo ainda não desvendado em profundidade, sobre a razão de ser desse epíteto dos patos bravos. Convirá sublinhar, que não competia às varinas tamanho aprofundamento. Porque as varinas serviram-se dos pregões, em razão das suas conveniências comerciais. Uma feliz coincidência: os patos bravos comiam peixe, e as peixeiras vendiam-no, como alimento. E era quanto bastava, para ajudar ao seu negócio.
O valor mais profundo desse segredo foi tomando força nos reencontros dessas gentes de uma e outra margem do Zêzere, algures por Lisboa. Como se as águas do Zêzere se pudessem isolar no caudal da foz do Tejo e aí, renascer todo o cardápio saudosista e fraterno das vivências dessas gentes. Com ironia e chalaça se falaram dos epítetos dos patos bravos e dos peneiros, nos encontros das gentes de Tomar e de Abrantes, pelas obras de Lisboa e aos domingos pelo Jardim da Estrela, pelo jardim Constantino e pelo Campo Pequeno. Esses epítetos emanavam da mais profunda simplicidade, como era comum em todas as histórias populares. Abandonado o epíteto dos peneireiros, restava o outro epíteto, que ficou bem conhecido em toda a parte: os patos bravos.
Aos poucos se foi associando a verdadeira dimensão da história às suas origens, que partiram desse feliz aproveitamento das perseguições movidas pelos caçadores do Norte de Abrantes na demanda dos patos bravos, uma espécie muita abundante no rio Zêzere. Essas caçadas provocavam instintivamente nas espécies, a reacção da fuga. Mal pressentiam a proximidade dos caçadores lá fugiam os patos bravos para a margem oposta: a margem do lado de Tomar. Os caçadores confrontados com a inevitabilidade da sua desdita, tudo faziam para disfarçar a derrota. E com o intuito entre o manhoso e o irónico, para melhor desvalorizarem esse profundo desconforto, que todo o caçador que se preze, nunca digere lá muito bem, logo lhes ocorreu dizer, que a razão da fuga dos patos bravos para a margem do lado de Tomar se fazia em razão de algo muito mais profundo e misterioso, assente quiçá, num estranho sentimento de segurança de quem pisa o chão da sua verdadeira terra. Estava encontrada a explicação mais conveniente, que lhes era dado observar quanto à fuga das aves, para a margem de Tomar. Pudera, ali, do lado de Tomar, é que era a terra dos patos bravos!
Os tomarenses apercebendo-se do remoque reagiram ao epíteto, e em jeito de retaliação lembraram aos vizinhos, de que fugas daquela natureza só sucediam quando andavam aves de rapina no ar, como os peneiros, a espécie predadora muito comum, precisamente, nos pinhais de Abrantes. Numa acintosa alusão às ditas aves de rapina, sempre a espreitarem com soberba predadora, os patos bravos, tornava-se claro, aos olhos dos tomarenses, que os caçadores de Abrantes, só podiam personificar essa espécie predadora: os terríveis “peneireiros”!
Não era de estranhar que nos reencontros dessas gentes das duas margens do Zêzere pelos quatro cantos de Lisboa, e com especial destaque por esse espaço do convívio de eleição das gentes de Tomar e de Abrantes, que era o Campo Pequeno, com incursão obrigatória pelas tabernas do “ Zé Ricardo” e do “ Manolo” , se revivessem essas histórias com redobrada e estridente alegria.
Os mestres pedreiros de Tomar e os seus vizinhos, os mestres carpinteiros de Abrantes, saudosos das enternecedoras recordações das suas terras não mais se calaram com os mimos trocados entre si, pelos locais de trabalho. Os ecos desses epítetos tornaram-se conhecidos de muitos e foram aproveitados pelas varinas.
Porém, outro pregão mais determinante terá surgido, estampado nas páginas do importante Diário de Notícias nos anos 1950, nas notas da Cidade, cuja coluna vinha encimada do logótipo com dois corvos, que se fizeram ler e comentar por todo o mundo português, em vários continentes.
Leitão de Barros, - um ensaísta, professor, dramaturgo, realizador de cinema e pintor com obras em museus, depois de ter passado pelo curso das Belas Artes, e ligado a uma família de artistas plásticos, por via do casamento com uma filha do pintor e publicista Roque Gameiro – ao caricaturar com o talento e a aceitação que se lhe reconheciam, no DN, fez recair com estrondo esse epíteto sobre os construtores, criando com esse anátema o terrível descrédito da classe construtora, sobretudo, com a análise de carácter que deixou bem gravada, e com especial acinte, em textos, como o deste relato nos “Corvos”, ao escrever:
- « A pequena história do muro que tinha glicínias e rosas, que não merece talvez as poucas linhas desta poeira da cidade (…) Um dia apareceram por ali três homens decididos a tirarem medidas ao muro (…) Eram desses provincianos construtores que vieram da terra “tomar” Lisboa aos tolos ».
A velha senhora dona do muro havia acabado de ser sepultada, quando esses três homens decididos apareceram a tirar medidas ao muro, certamente a pedido dos herdeiros. Todavia, não foi por aí que Leitão de Barros conduziu a sua sátira. Dir-se-ia que a pressa em acabarem com as glicínias e as roseiras nesse muro, era mais uma vontade egoísta dos construtores, a quem não faltavam terrenos para construir disponibilizados pela própria Câmara Municipal de Lisboa, do que a ganância de quem desesperava por arrecadar para si, os dinheiros da venda da herança deixada inesperadamente, pela defunta. Como se os tolos fossem os que recebiam dinheiro certo a contado, e não os que pagavam, por um terreno entre muros, ainda antes de saberem garantidamente, se a Câmara iria mesmo lá aprovar algum prédio.
Mesmo percebendo o desencanto de quem via ali o último rebento de rosa no meio dos bidões de cal dos estucadores dessa obra, sem dúvida, que a perspicaz descrição de “um dia aparecerem por ali três homens decididos… (…) …a tirarem medidas ao muro”, nunca poderia negar a esses três provincianos construtores, o mérito dessa decidida e ousada visão.
É certo, que os arquitectos também foram criticados por si. Mas nada comparável com a essa execução sumária, ao juízo de carácter que fizera aos construtores, em plena praça pública, através das páginas do maior diário editado no país e lido em quatro continentes. Quando o pior que escreveu sobre os arquitectos não passou deste título lateralizado:
- « Fujam – que vem aí a Urbanização!»
E prosseguindo:
- «A urbanização e, nela um dos seus capítulos mais anedóticos – é a arquitectura! »
« “Urbanização”! Solene e retumbante palavrão é esse, que corresponde, afinal a este simples, concreto e velhíssimo trabalho: arranjar melhor vida para um aglomerado de bichos que decidiram reunir-se, estupidamente, num espaço, em geral pequeno demais para o seu número.»
Por aqui se pode ver as reservas, que o olhar crítico de Leitão de Barros lançava sobre os arquitectos. Sem contudo, os atingir na sua dignidade, como o fizera com « …os três homens decididos (…) a tirarem medidas ao muro (…) desses provincianos construtores que vieram da terra “tomar” Lisboa aos tolos».
Em relação aos arquitectos tomou outro cuidado, e é bom não esquecer a coincidência de Leitão de Barros e de um importante arquitecto [ Cotinelli Telmo] terem tido um papel marcante na época do Estado Novo, tendo António Ferro como aliado. Leitão de Barros secretariou a Exposição do Mundo Português, chefiada precisamente, pelo arquitecto Cotinelli Telmo, nascido em Lisboa, e autor do Monumento aos Descobrimentos e do projecto da Praça do Império, o projecto dos estúdios da Tobis, a que o colunista do DN também esteve ligado. Tudo isso, para além de aparecerem ambos a dirigirem filmes de longa metragem, de assinalável êxito.
E o cuidado que teve com os arquitectos pode ser confirmado plenamente, neste pormenor do escrito de uma dessas críticas, a que não é alheio outro seu propósito de intervenção, como sublinha quanto à designada “crítica não diplomada” na coluna do DN:
- «Alguns respeitáveis e convictos arquitectos (bastantes, de mérito, uns portugueses outros estrangeiros) estão definitivamente dominados pela ideia de que “urbanização” é só com eles. Que os sociólogos, os médicos, a defesa, a protecção civil, os higienistas, os artistas e a polícia não são para ali chamados. E muito menos a crítica – não diplomada, é claro.»
Esta especial deferência para com os arquitectos, pese a discordância em tão magna questão da “urbanização”, contrasta em absoluto com a opinião acintosa que demonstrou sem dó nem piedade, contra os construtores, «desses provincianos construtores que vieram da terra “tomar” Lisboa aos tolos».
Apesar das sérias reservas que manifestou contra a exclusividade de toda a concepção das urbanizações entregue de mão beijada, à decisão dos arquitectos que foram, quem tomou as decisões mais determinantes, quer na elaboração dos projectos dos prédios, quer na fixação das características técnicas e do designer das habitações e fachadas a erguer, quer na sua aprovação municipal, ainda assim, o que escreveu nunca foi para dizer a verdade óbvia, de que os prédios – bonitos ou feios – sempre tiveram o desenho dos arquitectos e engenheiros e a superior aprovação dos serviços técnicos e da administração autárquica, supostamente desempenhada por gente letrada, instruída e culta.
Quando muito, talvez a culpa dos construtores tenha residido mais no facto de terem respeitado em excesso, tudo quanto os arquitectos determinaram nos projectos elaborados e aprovados por licenciados em arquitectura e não tanto, por serem provincianos vindos da terra de “tomar”, a quem com leviandade abusaram dos termos, “patos bravos” e de “gaioleiros”, transpondo para estes, a canga colectiva como acontecia com todo e qualquer bode-expiatório.