A primeira viagem do José e do Adelino ocorreu em 1940, tinha o José quinze anos já feitos e o irmão, um ano a menos. Desta vez não iriam desembarcar em Santa Apolónia como acontecera com a mãe, há quinze e dezasseis anos atrás, em duas viagens de Agosto. Duas viagens que terminaram cada uma em sua gravidez. Foi o próprio Florêncio quem despertou em desassossego para o problema e acabou com as viagens da mulher a Lisboa, dando conta que àquele ritmo, ainda acabava por ter um rancho de cachopos para criar. Em compensação, já nada o fazia recear de que a causa da infertilidade pudesse ser sua. Tinha ali a prova naqueles dois rapazes, seus filhos.
Os filhos estavam com o pai. Serem filhos do encarregado dos carpinteiros não lhes deu grande opção quanto à dureza do trabalho: escolher pedra nas pedreiras que mais tarde haveriam de ser recobertas com terra negra e relva muito verde naquele que seria o futuro Parque Eduardo VII.
O José e o Adelino receberam a tão desejada guia de marcha enviada pelo Florêncio. O patrão Nunes fazia questão de ver os rapazes a trabalharem com ele. Já traziam consigo umas luzes de carpinteiro, se bem que o trabalho pela terra a consertar umas ripas do telhado e uns currais não fosse o melhor treino para quem queria ver os filhos a meter ferragem e fechaduras e a pendurar portas. E quanto a pendurar portas talvez não soubessem muito, pois aprenderam com o que o tio João, o Bugigangas, o que não se deve fazer a ninguém. Muito menos à porta de uma vizinha, sem que o mestre ou os aprendizes dessem conta.
Era uma porta como todas as portas lá na aldeia, com a abertura em meia lua no fundo, o buraco que todos entendiam por bem terem as portas para o gato lá da casa poder entrar e sair a toda a hora para melhor caçarem os ratos. Chamavam-lhe a gateira da porta, logo a meio da porta por cima da soleira de entrada. Só que aquela gateira estava muito mais acima da soleira. Seria a dona da casa a primeira a gritar toda alarmada ao encarar com a gateira, no lugar mais insólito: no cimo da porta.
- Ah ti João, então o que vem a ser aquilo, a gateira está ao contrário, posta no cimo da porta?
O tio João olhou para os aprendizes, piscou-lhes o olho e lá lhe saiu uma boa desculpa:
- Oh ti Maria, assim lá no cimo, é bem melhor! Já fica preparada para os assanhados! É que os assanhados não entram por baixo, trepam por cima…
Tomara que os rapazes não se lembrassem de uma desculpa dessas ali pelas obras de Lisboa. Era preciso, prepará-los. E recordar-lhes mais umas manhas dos mais velhos, sempre prontos a pregar a partida aos novatos, com a caçada aos gambuzinos, no meio do pior lameiro ali das redondezas, quando não se dava o caso de os mandarem ir à obra ao lado buscar a régua de correr os cantos à casa, e não faltava quem logo lhes pusesse aos ombros o maior e mais pesado toro de pinheiro que houvesse na obra, com toda agente a espreitar por aquelas fachadas fora em estridentes gargalhadas e grande açougada, que durava toda a semana e deixava marcas de humilhação pelos tempos mais próximos.
Na aldeia natal, só se podia nascer. Manter vida naquela terra e por aqueles tempos da 2ª guerra mundial, por muito humilde que fosse o viver diante da agricultura de subsistência, nada fazia dispensar a injecção de ganhos extras com viagens periódicas até Lisboa.
Lisboa, tinha que ser uma boa terra: cabiam lá todos! Os filhos lá nascidos, mais quantos chegassem a todo o tempo.
E sendo domingo, - o dia da partida do jovem José, e do irmão Adelino - aquela manhã bastante fria e húmida vincava bem melhor, do que qualquer calendário poderia mostrar, como era chegado o Outono. Os bandos de tordos a poisar e a levantar voo comprovavam o que os ramos de oliveira, lhe tinham para dar como alimento.
Ao mesmo tempo, as folhas dos castanheiros – as árvores do pão e que davam nome ao Souto - meias amarelecidas deixavam-se cair sobre o solo. E ao caírem, lá iam cobrindo o chão pedregoso, como se quisessem esconder a amostra arrepiante das bolas como que cravadas de alfinetes no ar virados em todas as direcções. Essas bolas eram os ouriços com que as árvores protegiam os seus fritos. Estranha forma de guardar os frutos.
E o que pensar de uma terra onde as árvores com frutos mais abundantes respondiam com tamanha crueldade, à cobiça generalizada numa terra baptizada com um nome colectivo: Souto!
A árvore do pão, que sempre foi crescendo e frutificando, enquanto as águas do rio Zêzere formaram correntes. Mal as águas pararam de encontro ao paredão do açude do Castelo de Bode, a cota plena da albufeira, criou um micro clima mais húmido que despertou uma reacção mortífera nessas árvores: o mal da tinta. Deixaram de dar pão!
Não consta que algum ecologista viesse com bondade ambiental prover aquela desgraça. Foi Souto com castanheiros muitos séculos. Não o seria mais, pela certa, com esses castanheiros mortos. Na verdade, a desertificação que se vem sentindo nos últimos anos faz temer o pior.
Aquela terra no pouco que criava, fazia-o sempre com extrema dificuldade e mil carências. Era tudo tão difícil que tudo se perdia.
Era assim com os frutos da terra. Era assim com os homens por lá nascidos. Pois metade dos seus filhos – os homens feitos e escorreitos - se quisessem sobreviver, teriam inexoravelmente, que procurar a sobrevivência noutras paragens. Foi o que sempre fizeram.
Um cajado enfiado nas asas, metade pendurado para a frente onde poisava o braço direito a guiá-lo e em contrapeso e a outra metade para trás, fazendo dos ombros o eixo. Era essa a habilidade em colocar a carga enfiada num cajado ao ombro: até lhe diminuía o peso.
Aqueles dois jovens não ascenderam a nada, por truques de secretaria, por “numerus clausus”, por acotovelarem os amigos que estavam em redor, só porque ambicionassem o mesmo lugar. Não foram buscar guia de marcha ou ordem ao regedor. Eram livres de partir, porque sabiam que alguém os esperava e com trabalho certo.
Aqueles jovens queriam construir a sua vida com a força dos seus próprios braços e viam na companhia dos demais, não a usurpação mas a colaboração útil e natural para a mesma finalidade redentora. Era assim, que se construía um país.
Naquela manhã de domingo, os dois irmãos rumaram até à porta da taverna e mercearia em Bioucas, a única na aldeia, onde todas as ruas da terra pareciam vir desaguar, como se quisessem guiar os seus moradores, diante do perigo de se perderem naquele desenho urbano tão simples e tão primitivo também.
Vá lá saber-se porquê, todos os caminhos e ruelas desaguavam na esquina da única loja da terra. Um plano urbanístico que as famílias foram desenhando com o saber das suas vivências, resultando no melhor e mais natural dos ordenamentos urbanísticos, sem a canga de exércitos de burocratas.
Sábia ideia colocou ali a única venda para serviço da terra. Como colocou o largo logo defronte e a fonte no vale mais acessível. E no aconchego das promessas dos homens que com enlevo se juntavam aos desejos e às preces das mulheres da terra, feitas por amor a Deus, logo cresceram em redor, as necessárias certezas de implantar no topo desse largo a futura capela da aldeia.
Era assim que tudo começava em qualquer aldeia. E as povoações cresciam, por que nasciam crianças, erguiam-se escolas, que se julgavam válidas para sempre. Morriam os velhos, mas não faltavam os vivos, novos e velhos para lhes conferirem um enterro digno no cemitério. Estava feito o ordenamento do território, sem terras asfixiadas em morte lenta.
No dia da partida do José e do Adelino, não faltou a jovem vizinha. Nessa altura ainda ninguém sabia, nem os próprios namorados, que daí a meia dúzia de anos era essa mesma jovem quem iria chegar com o filho Duarte ao colo a caminho de uma casa de porteira em Benfica que o seu marido José, sócio na construção desse prédio, recebeu à sua conta. Foi o lucro possível nessa mesma construção, à falta de outro melhor.
Ninguém iria acreditar: o direito a habitar a casa de porteira, o espaço mais pobre desse mesmo prédio arrendado, acabava por ser o lucro de um dos construtores, deixando-o por ventura, devedor para com os demais sócios, naquele empresa.
Ia valendo a carreira promissora para essa jovem esposa, orgulhosa por ostentar ao peito, uma medalha oval de chapa platinada presa por um alfinete à aba da gola da bata, com o título bem vincado a negro: “ Porteira”.
Naquela chapa com as letras a negro se resumia o chamariz mais simples para atrair uma mulher do campo para a cidade, oferecendo-lhe a casa de porteira de um prédio, em Lisboa. Mesmo que para isso, tivesse que deixar fechada a casa que tanta areia carregara para a ver erguida lá na terra. Essa casa ficava guardada, para quando um dia regressasse com um pé-de-meia. Claro que a meia foi crescendo em novas ambições e o regresso à terra em definitivo, talvez que fosse outro bem mais definitivo, num talhão do cemitério, quando se apartasse desta vida terrena.
Entretanto, ia valendo essa medalha que só cabia no peito de quem tivesse um exame da 3ª classe. As habilitações literárias, permitidas pela sua professora da Acção Católica, depois de ter persuadido o pai da aluna a deixar-se de modas por querer para a filha o exame da quarta classe, pois melhor fora que pusesse a filha a acarretar lenha e mato, em vez de se dar a esses luxos dos exames. Assim falou aquela que dizem ter sido uma boa professora, com direito a nome de rua na aldeia.
A despedida foi feita de forma apressada e entre os jovens namorados ainda não houve dessa vez lugar a beijo. Pelo menos naquela hora de partida. Um aperto de mão mais demorado e um baixar dos olhos dela com as maçãs do rosto a corarem levemente, ante alguma atrapalhação. Eram esses os usos e costumes. Onde não faltava um zeloso Regedor da terra a ameaçar de prisão e multa um número suficiente de jovens namorados, capazes de servirem de exemplo, em nome da disciplina e dos bons costumes, só por que o braço do rapaz apertou demais o tronco franzino da sua donzela, despertando neles o desejo de um fortuito beijo.
Partiram com olhos húmidos e uma pressa de descerem o vale de Bioucas até ao rio, podendo já calcular que o que descessem nesse lado do rio teriam que subir por igual na margem oposta até à Serra de Tomar, onde os esperava a carreira para os levar a Lisboa. Foi como se tivessem nos olhos a bolha de nível que doravante não deixaria mais de lhe fazer companhia como ferramenta no trabalho. O que descessem numa margem, teriam que subir na margem oposta.
Ao longe soaram as badaladas do sino da Matriz. Não deu para contar as badaladas, porque alguém assomara ao postigo e desejara boa sorte aos rapazes. Alguém com a idade suficiente para ter visto muitos outros jovens partir. Nem todos regressaram. E os que regressaram chegaram mais velhos, mais desiludidos também.
Não há-de ser nada! – o termo bem característico e bem avisado do uso popular. Não há-de ser nada, não senhor. Quem é que sabia ou podia garantir uma coisa e o seu contrário?!
A meio da descida e mal desapareceu o soar dos sinos, como que a avivar a hora combinada o jovem José levou dois dedos à boca e fez soar por aqueles vales do Zêzere um sonoro e bem característico assobio, tantas vezes ensaiado com os amigos do pastoreio das ovelhas e das cabras que os juntava a todos no final da escola. Era um aviso para o amigo Jesuvino pegar no barco e vir da outra margem ao seu encontro. Estranharam não ouvir o assobio da resposta. Repetiu o mesmo assobio e nada veio como resposta.
Antes que pudessem congeminar mais alguma razão para essa estranha ausência de resposta, lograram vislumbrar o Jesuvino, de casaco vestido à sua espera dentro do barco. Não estranharam nele, o casaco vestido. Era domingo.
Atravessaram o rio no pequeno barco do amigo Jesuvino, naquela zona da Barca, onde só aqueles três amigos sabiam como as duas margens se uniam, como ninguém mais havia ainda descoberto.
Não o descobriram milhares de franceses quando buscaram em vão, o melhor local para atravessarem o rio, como sucedera com Junot, também ele ansioso de chegar a Lisboa. Sucederia o mesmo com Massena incapaz de recuperar Abrantes e precaver a retaguarda das suas tropas de surpresas desagradáveis.
Agora, a pressa dos seus dois amigos, também era a de chegarem a Lisboa.
O Jesuvino exigia mais: queria ir com eles.
Os amigos dissuadiram-no. O pai do Jesuvino não iria gostar. Nunca lhes perdoaria uma traicção daquela natureza. Pensaram mal, quanto a isso.
Aquele impedimento à ida do Jesuvino foi uma lição, que os perseguiu o resto da vida. Parar é morrer. E eles travaram o amigo Jesuvino, empurrando-o para uma fatalidade, meses depois. Era tarde para arrependimentos.
O Jesuvino, por ali ficou entre as ovelhas e as jornas, no isolamento e no barco cada vez mais velho, à espera da morte. Ficar era morrer. Mas nenhum imaginou que pudesse suceder uma desgraça daquelas, na primavera seguinte.
A irmã do Jesuvino, com a curiosidade muito própria das crianças distanciou-se da avó que colhia as couves para a sopa, e procurou ver mais de perto um cardume de bogas que procuravam um retiro para a desova. Saltou de pedra em pedra, no que aos seus olhos inocentes mais parecia um convite, tal era a simpatia do arredondado das enormes rochas, que espreitavam sobre as águas, absorvendo da água aquela humidade que fazia crescer um fino musgo, tão curto quanto traiçoeiro e escorregadio.
O rio ainda corria com um caudal forte.
Saltou entre as duas pedras mais próximas da margem, mas era a terceira a que lhe parecia proporcionar melhor visão do cardume. Não hesitou em a alcançar. Parecia fácil saltar. Só que não conseguiu manter o equilíbrio. Escorregou e o seu grito foi ouvido pela avó, que logo correu em seu socorro e com um pau tentava alcançar a neta. Conseguiu que ambas segurassem o mesmo pedaço de ramo de árvore que as havia de levar juntas para o meio do rio. E duas vozes se fizeram ouvir aos gritos, gritando por socorro. O Jesuvino acudiu logo com o barco ao seu encontro. Chegou-se bem perto delas. Mas o último grito da avisada avó, que no meio daquele desespero ainda mantivera o lúcido aviso, foi:
- Ai filho, foge, que nós vamos morrer!
O barco desgovernado, refém da corrente, já não obedeceu ao esforço de comando do Jesuvino, que tentava alcançar a avó e a irmã, mesmo ali à frente do seu remo, quando revirou e embateu contra uma rocha e partiu-se ao meio. Estava escrito o destino da avó e dos dois netos. Como estava escrito que o Jesuvino não iria nunca para Lisboa.
Tempos depois, ainda os dois irmãos tiveram que ouvir em silêncio, o desabafo do pai do Jesuvino, por o filho não ter ido com eles para Lisboa.
Resignado o pai do Jesuvino parecia querer culpar os amigos do filho, para melhor se aliviar do sentimento de culpa que lhe pesava na consciência, por ter sido tão possessivo com a vida que o filho perdera.
Estarrecidos diante daquela serôdia complacência paternal, os irmãos não conseguiram dizer nada. Nada mesmo.
Antes de entrarem no barco, o José desaperta as botas sentia os pés doridos, apertados pelas botas. Descalçou-se. O irmão imitou-o. O barco metia água.
Colocaram as botas, na ponta do cajado onde penduravam cada um o seu o cabaz a coçar-lhe as costas com as vergas. À sua frente, penduradas pelos atacadores de fino couro, o odor das mesmas, era amaciado pela aragem suficientemente forte, para esbater o cheiro bem característico que exalavam vindo do suor dos pés, sem peúgas.
Ambos com o braço direito meio levantado e estendido no ar, descarregados sobre os respectivos cajados, assemelhavam-se aos pinheiros que volta e meia se deixavam ver junto ao caminho, também eles com os seus braços em vão estendidos para o céu, com cantava o fado de Amália.
Quase ao cimo, já com o ladrar dos cães das primeiras casas a fazerem ouvir-se de forma ameaçadora, como que lembrando-os do quanto eram estranhos naquela terra, pararam e rodopiaram sobre si mesmos, aproveitando para um último olhar para a terra que os viu nascer.
Bioucas ficava mais fria e mais triste. Duas dúzias de casas caiadas de branco entremeadas com outras tantas de pedra seca, mais ao longe, as duas últimas casas na Fontiela, ainda deixavam ver o fumo a sair de uma das chaminés. Uma outra chaminé a fumegar do outro lado da ribeira da Brunheta assinalava vida na Cabeça Gorda, na casa do avô José, o homem da perna de pau, encarregado da tanoaria do Poço do Bispo, quando um arco lhe pisou um pé e em resultado sofreu a amputação.
Tudo quanto preenchia o quadro urbano que contrastava por entre o verde da floresta e os recortes dos socalcos das encostas bem definidos pelas paredes de pedra seca que as mãos hábeis e resistentes de seus pais e seus avós haviam colocado uma a uma, naqueles bem alinhados muros de suporte de terras, com que foram conquistando mais um pedaço de terra plana, onde antes, nada se colhia nessa encosta íngreme e pedregosa.
Aquelas paredes com quilómetros e quilómetros de linhas paralelas ao rio, sucediam-se degrau a degrau a descerem as encostas até acabarem no rio. Vincavam bem os genes construtivos daquelas gentes e essa capacidade ímpar de com suor e sofrimento conquistarem o seu espaço de sobrevivência neste mundo.
Uma ideia sorriu-lhes: no regresso iriam preparar o poiso para a sua casa própria, acrescentada ao casario já existente. Iriam trabalhar no futuro sempre a pensar nesse objectivo fundamental para as suas vidas.
Deixaram ficar a sua mãe a cuidar das fazendas. O dia a dia destas mulheres, era cuidar das terras. Mandando cavá-las a outros homens, pagando-lhes com o dinheiro que só o marido ia ganhando por Lisboa.
Comiam da fazenda. Enchiam as arcas de milho que dava pão, engordava os bicos e fazia crescer o porco. O grão e o feijão iam para outra arca. Os frutos secos enchiam uma terceira arca. O azeite ia para a talha de barro, onde cabiam uns bons alqueires. A azeitona de água ficava na talha de conserva. A prateleira das batatas estendia-se pela outra parte da casita da arrumação, onde ao outro canto ficava um ou dois barris de vinho para todo o ano. As verduras e leguminosas iam da terra para a panela e os restos para a lavadura do porco. A água de beber e de comer era transportada da fonte em cântaros de barro. As águas das lavagens vinham das chuvas – quando chovia – e eram encaminhadas para um tanque ou para uns talhões de barro. E as lavagens do corpo eram mês a mês no inverno e todas as semanas no verão, algumas vezes aproveitando-se as idas ao rio ou à ribeira para a lavagem da roupa.
Não havia casa de banho. Havia uns arbustos ao fundo do quintal, uns matos e pinheiros. De tempos a tempos revirava-se a terra com uma cava e era nessa terra que nasciam as maiores abóboras, que engordavam os porcos. A hostilidade e a censura aos que primeiro instalaram uma casa de banho, como em Lisboa, fazia correr rios de desdém pela terra.
O José ainda não tinha sabido avaliar muito bem o alcance da sua fortuna. Além da mãe cuidadosa, na terra, ainda tinha o pai em Lisboa, à sua espera, e com trabalho assegurado para ele e para o irmão, tudo isso, em tempos de guerra. Era como ter um pai alcaide.
Que mais havia a fazer, quando alguém surge para nos desatar o nó…
No fundo, eram duas crianças, a quem o destino castigava de forma implacável. Uma crueldade imensa que se abateu sobre dois irmãos, que sentiram na pele, a má paga do pobre amanho das terras da família. Como se não bastasse a desgraça que caiu sobre o avô, regressado da guerra de Moçambique, com Mouzinho, para acabar morto pelo deslizar de um calhau que ajudara a escavar nas encostas, sobranceiras ao rio, que anos depois iriam ficar submersas.
Foi o avô quem escolheu as pedras envoltas na própria terra que cavava. Uma a uma lá as ia empilhando e assim, fez crescer metros e metros de parede, nivelada pela altura dos seus ombros, com a heróica finalidade de suster um tabuleiro nivelado de terra nova, conquistada ao declive íngreme da margem do rio obtendo mais terra de cultivo na vertente para o rio Zêzere. Contrariava-se a natureza, sem que se adivinhasse ainda, que alguém, lá longe, no Terreiro do Paço desenhava o leito máximo de enchimento da albufeira, a um nível que tudo submergia.
Literalmente, de costas voltadas ao rio, cresceram as terras em socalcos, que esse mesmo rio a mando dos homens do Terreiro do Paço viria a submergir.
De costas voltadas para o rio a norte, uma pedra mais pesada desabou sobre um pé do avô. Levado às costas por um primo possante, foi descansar da ferida na cama. A infecção não parou. Gangrenou. Subiu ao corpo.
O herói de Chaimite, que escapara às catanas dos indígenas moçambicanos, acabava ali naquela terra aonde regressara, depois de dobrar segunda vez o Cabo das Tormentas.
Eram essas terras do avô que ele abandonava agora, quando o outro avô – o paterno – havia regressado há dois anos atrás, de Lisboa, meio adoentado pela ferida num pé, que acabou amputado, devido à queda de um aro metálico quando trabalhava na tanoaria do Poço do Bispo, onde era encarregado. Foi esse avô carpinteiro feito tanoeiro, que levou o pai do José para Lisboa. E nessa época não faziam as viagens de camioneta. Iam a pé, borda de água abaixo.
Foi nesses intervalos da doença do avô e com outro tio a orientá-los, que o José e o irmão foram aprendendo os primeiros ensinamentos da arte de carpinteiro, a profissão que lhes valeu para o resto da vida, a peculiar progressão na carreira.
As terras de um e outro avô ficariam para depois, quem sabe quando um dia regressassem.
Entretanto, ficava pela terra a mãe e a irmã, a administrarem as fazendas e a aplicarem algum do escasso dinheiro nessa faina agrícola. Trabalhar uns anos em Lisboa e um dia regressar com um pé-de-meia era a meta estabelecida, pelo menos desde há duas gerações atrás.
A casa e as terras sempre foram a matriz de vida, segundo rezava a memória dos avós e de todos quantos os antecederam. Apascentar o rebanho de ovelhas e cabras, uma missão imemorial, até já constava da Bíblia como o jovem seminarista da terra, João Rosa, o Rosa do Souto, assim lhe chamavam no Seminário de Portalegre, os ensinara na catequese, pela Quaresma.
Porém, aquele mundo de Deus não lhe parecia nada abençoado.
Não consta que entre os milhares de postais com convocatórias emanadas dos serviços municipais, alguma vez um arquitecto ou engenheiro quisesse falar com os mestre e os construtores sob a necessidade de corrigir a técnica da mão de obra ou a qualidade dos materiais a aplicar na obra. Nem a qualidade era questão que fizesse perder tempo aos técnicos, nem esses técnicos municipais sabiam dar valor ao custo que cada mês de burocracia criava no preço final da obra. Se houvesse um mínimo cuidado em não sobrecarregar o preço final das habitações, muita burocracia teria sido aligeirada.
Acontece, que nenhum economista – ou o Banco de Portugal - souberam equacionar a dimensão do grave problema que consistia em irem deixando crescer a despesa da habitação. Nessa altura ninguém cuidava de avaliar os impactos da dívida externa.
Num país onde sobravam tantos terrenos baldios que ninguém utilizava, havia outros que eram vendidos a preço de ouro.
Espanta como ninguém se deu ao trabalho de avaliar os custos destas formalidades burocráticas e lhe pusesse cobro.
Paradoxalmente, os “patos bravos” não foram mais do que simples aves de arribação que viram a sua aldeia condenada a ceder metade das suas terras para a inundação da água de uma albufeira que acabou por dar água e luz à capital. Um projecto desenhado na mente do Engº Duarte Pacheco, cuja grandeza do gesto de visão, obrigou à contratação de um engenheiro vindo especialmente dos Alpes para os primeiros estudos do Castelo de Bode.
E assim teriam ficado a olhar embevecidos aquele quadro tão familiar, cuja nova perspectiva retirada agora do outro lado do rio, lhes servia de novidade, se não fosse o roncar dos motores da camioneta que se fizera ouvir com maior estrondo.
Ao dobrar a esquina que antecede o largo, no patamar superior do adro da igreja matriz, lá estava o motorista da carreira a aquecer o motor. Uma corrida imediata dos dois até à camioneta com os vidros das janelas todos fechados e embaciados pelo frio daquela manhã.
Quando entraram de rompante a ofegar todos os passageiros se voltaram ante o espanto, logo quebrado pelo soltar de várias gargalhadas, uma a uma a soar e a ecoar estridentes, naquele interior mal arejado.
Só eles, é que não perceberam de imediato, o motivo da risota, de tão apressados que estavam para saltar para dentro da camioneta, com o cajado às costas e o cabaz pendurado, e as botas. Sim, as botas penduradas no cajado! Era esse o motivo da risota…
Imagine-se se isto já era assim, mal haviam passado o rio para o outro lado da sua aldeia, o que não seria, uma vez chegados a Lisboa…
- “Joguem os cajados fora terá logo advertido o motorista”. Assegurando:
- “Se vocês fossem com os cajados para Lisboa acabavam logo presos pela polícia” – rindo-se muito até contagiar todos os passageiros.
O eterno complexo de quem chega de longe e tem que vencer o preconceito fátuo dos residentes, onde poucos admitem ser também eles verdadeiros e genuínos aborígenes.
Naquele momento nem podiam imaginar que foi um tal José Fonseca Peres de Abrantes quem com a sua figura sui generis inspirou Rafael Bordalo Pinheiro, quando ambos se cruzaram no Terreiro do Paço. E com a memória visual dessa criatura transportada até ao seu atelier das Caldas, lá criou a imortalidade dessa caricatura irónica e hilariante, chamada de Zé Povinho.
Foi o condutor da carreira da Serra de Tomar quem lhes travou a entrada na viatura e gritou, para taparem os canos das botas, que já não podia mais com o cheiro a chulé! E fez acompanhar as suas palavras com o gesto do polegar oponível ao seu indicador, apertando o seu próprio nariz e cuspindo saliva com as suas gargalhadas.
Os restantes passageiros esticavam por sua vez, o pescoço e cravavam neles o olhar irónico e trocista. E num repente, os dois jovens caíram em si. O José atrevido e com ar de desafio, não se deixou atrapalhar e logo arrematou:
- Não tenham medo do chulé que a gente lavou os pés ao atravessar o rio. Vocês é que são os patos-bravos, mas nós, é que gostamos mais da água.
E atrevido, soltou bem alto, os sons de imitação dos patos:
- Quah! Quah! Quah!...
Uma graçola apenas, e tanto bastou para deixar alguns dos passageiros a resmungarem como sinal de protesto pelo atrevimento dos rapazes. Um dos passageiros fez mesmo, um comentário mais mordaz:
Estava bem visível ali no interior da carreira, toda a rivalidade e toda a troca de mimos tão comum entre os peneireiros e os patos bravos.
Estávamos no ano de 1940 e a Guerra que lavrava na Europa para além de muitas carências de bens e géneros tinha atingido o pequeno industrial de camionagem que fazia a carreira do Souto para Abrantes. Por falta de pneus essa carreira já estava, há uns meses sem circular. E Abrantes não cuidou mais de fazer a substituição do transporte. Abrantes, talvez visse com alívio, a suspensão dessa carreira que lhe trazia sempre alguns fregueses mais incómodos. Não restava pois, outra alternativa senão procurar a carreira do lado de Tomar.
E aí chegados, Lisboa era sempre em frente…
Ao fim de umas horas à descoberta da rota desse mundo novo, chegaram à Central de Camionagem. Na subida da Rua Andrade uma última manobra esperava o motorista. Uma manobra apertada que obrigava o motorista a acertar na abertura da garagem e entrar à primeira tentativa, deixando dois escassos palmos de folga entre as laterais, e nunca se sabendo bem, se os cabazes atados no tejadilho da camioneta escapavam ilesos na folga até à verga do vão de entrada da garagem.
O José baixou a cabeça instintivamente, um gesto que não passou despercebido a um outro passageiro ao lado, que deixou escapar um sorriso, lembrando-se do que já lhe havia sucedido antes. A troça dos outros está quase sempre bem alimentada pelo ridículo das experiências próprias.
O José respirou fundo. Nem deu conta de que estava a ser observado.
Quando ainda faltava meter a metade de trás da carreira na garagem, descobriu de imediato na gare o seu pai à conversa com dois senhores muito bem vestidos.
Serviu-lhe de aviso: logo lhe acudiu à ideia a possibilidade de o pai nem olhar para eles, assim tão mal trajados, mal ele e o irmão se chegassem junto a ele. Não era nada que não lhe parecesse já familiar, pois seu tio-avô costumava andar por Abrantes em dias concorridos de mercado e com uma chibata na mão, dando a entender a todos, que tinha o cavalo por perto, às portas da cidade. E se os filhos ou os sobrinhos o acompanhavam, tinha sempre o cuidado de os ir deixando para trás a alguma distância, não fosse cruzar-se com alguém importante e sentir a repulsa pela companhia dos familiares mal ataviados e de tamancas nos pés, que logo lhe diminuíam o status social.
No limite, já ensaiara a desculpa, de que eram os filhos “do pobretanas” do vizinho, lá da terra. E aos vizinhos não se pode dizer que não, era parte da desculpa ensaiada. O resto viria da inspiração do momento.
O fantasioso tio João, a quem não via mandava recado, de que tinha ali o cavalo por perto, caso fosse preciso alguma coisa. Claro está que um dia não conseguiu contornar o pedido insistente de um amigo para que lhe levasse a saca de farinha, da cidade até ao Souto. Lá teve que a carregar às costas e descer a ladeira de Abrantes e prosseguir com a saca até meio caminho, ali ao Caravlhal, e lá ensaiou uma desculpa, à poreta de uma taberna, “de que recados urgentes o fizeram regressar no cavalo até Abrantes”.
E já exausto, mais não fez do que atravessar uns atalhos e ir deitar-se na cama, antes que alguém o visse chegar, sem o cavalo que nunca teve no palheiro, onde só por lá passou uma mula que morreu velha e tísica.
O Florêncio vestia um casaco assertoado, de cor cinza com uma leve risca branca sobre um fato de trabalho cinzento claro muito lustroso e muito bem engomado, que até ao longe dava para perceber que ainda tinha pouco uso. Talvez não tivesse ainda servido nas obras. Um chapéu preto, que mais realçava a pele branca do rosto onde despontava um fino e negro bigode. Uma barriga e um tronco cheios davam um ar maduro e pesado que tentava compensar com um menear de cabeça e um remexer constante dos braços, iludindo alguma perda de agilidade. Nada que desabonasse a um encarregado dos carpinteiros do grande construtor Manuel Nunes.
Florêncio não deixava de ter algumas parecenças com o seu tio João substituindo o apregoado “cavalo” pelo estatuto de mestre-de-obras, como se apresentava na praça pública, quando na verdade ainda não passava de mero encarregado dos carpinteiros do Manuel Nunes.
Entretanto, antecipando-se à aproximação dos filhos, o Florêncio rodou meia volta e apressou a despedida dos dois lisboetas bem vestidos de camisa, gravata e colete sob um fato escuro não fossem estes aperceberem-se daquela deprimente condição dos jovens provincianos. Todos fingiram levar a mão ao chapéu, em sinal de cortesia, e lá desapareceram para alívio daquele progenitor.
- A sua bênção meu pai – foi a saudação proferida quase em uníssono no virar de costas do Florêncio antes de encarar os dois rapazes, enquanto estes procuravam desajeitadamente, disputar a primazia pela posse da mão paterna para a beijarem ou simularem o beijo.
- Deus os abençoe, meus filhos - respondeu o pai, ao mesmo tempo que procurava com o olhar em todos os sentidos, como quem receava ser visto, e logo procurou a saída mais próxima. Convinha levar dali aqueles rapazolas mal ataviados.
Levou-os direito a casa, evitando as artérias mais movimentadas, desejoso de recuperar alguma transformação nas vestimentas, com umas camisolas e umas camisas que comprara no barateiro, pois não queria passar com os filhos tão mal ataviados pelo Campo Pequeno, não fosse o Sr. Nunes – o patrão que lhes assegurou o trabalho nas obras, – vê-los naquele estado. Era preciso cuidar da apresentação.
Chegados ao quarto, no nº 92, do 3º andar de 8 quartos, uma cozinha com ampla lareira sob uma chaminé onde costumavam trabalhar 8 fogareiros a petróleo antes da hora do jantar, os filhos iriam finalmente, perceber com algum desalento, quanto “o prá frente é que é Lisboa”, podia conter de paradoxal.
Todos os que diziam andar por Lisboa a trabalhar, enfiavam-se ao fim do dia naqueles cubículos e só de lá saíam, manhã cedo, para erguerem mais quatro paredes onde se aprisionavam no dia a dia do seu trabalho.
Naqueles prédios enormes e naquelas casas de corredores compridos distribuíam-se quartos e amontoavam-se hóspedes, dois, três e quatro por cada divisão, incluindo os quartos interiores sem janela. E a sanita e um lava mãos e uma pia de despejos, num cubículo fora da cozinha, ali a um canto do acesso pela escada das traseiras do prédio, lá ia servindo a todos. Só agora com os patos-bravos os prédios de Lisboa iriam conhecer as modernas casas de banho. Tardaram, mas os arquitectos lá as desenharam. Leitão de Barros não o filmou nunca. Mas os patos-bravos construíram-nas.
Arrumaram as roupas trazidas na bolsa de pano e retiraram do fundo do cabaz uma panela de sopa de carne, que a mãe cozinhara para os três.
Ao fundo do quarto uma passagem estreita separava as duas únicas camas de uma pequena mesa, onde iriam daí em diante tomar as refeições da noite, já que o almoço seria sempre na obra, com quatro tijolos a servir de pernas à tábua corrida a que chamavam mesa.
Os dois filhos sentaram-se no fundo da cama e o pai numa das cabeceiras da mesa, por sinal a única livre para receber um banco de madeira, pois a outra cabeceira ficava encostada à ilharga de um guarda-fatos, capaz de acolher a pouca roupa de tantos.
O pai logo calculou que em comendo metade da panela, a outra metade já dava muito bem para o almoço do dia seguinte – havia que saber distribuir a comida sempre escassa, para mais em tempo de racionamento - e o jantar desse domingo ficaria por uma sandes de torresmos, o novo pitéu que os rapazes iriam descobrir no “Zé Ricardo”, ou no Manolo, os carvoeiros com tabernas do Campo Pequeno.
Um pitéu que os moços iriam apreciar imenso, pela novidade. Melhor só mesmo os meios passarinhos fritos com bastante molho a escorrer da meia carcaça, a lembrar como o racionamento do pão melhor besuntava os beiços. Umas vezes por outra lá vinha essa novidade da manteiga a barrar o pão, como o pai lhes ensinou a ser comida, quando por vontade e puro palpite deles, diante daquela barra, a manteiga só poderia ser comida em fatias, como se de queijo se tratasse. Não faziam a coisa por menos.
Porém, o pai estava atento. E com a autoridade que naqueles tempos imperava, a féria da semana não era para gastos extravagantes nem para comidas em excesso. Havia sempre a perspectiva de mais uma compra de parcela de terreno lá pela terra, seguindo o conceito muito arreigado na tradição popular de que, quem se agarra à terra nunca cai…
Nesse apertado quarto do Nº 92, do Campo Pequeno, pai e filhos, como muitas outros parentes e amigos que se espalhavam pelos diversos inquilinos alugados estavam muito longe de imaginar o seu papel no futuro do imobiliário lisboeta.
Não imaginavam eles, nem os alfacinhas o quiseram admitir mais tarde, que tinha sido graças àqueles pobres diabos rotos e famintos, que viram desembarcar por Lisboa em bandos, que deviam o sucesso dos prédios das avenidas novas, na sua querida cidade. Os alfacinhas não o admitiam.
Mas no momento da chegada dos dois irmãos a Lisboa, o pai ainda era, e apenas, o encarregado geral dos carpinteiros de uma grande empresa de construções pertença de um poderoso industrial tomarense, a construir naquela correnteza da Avenida Rodrigo da Fonseca.
Um pai que esperava ensinar os seus dois filhos a seguirem a mesma profissão. Dois filhos, de catorze e dezasseis anos, cujos bens terrenos, não iam além da roupa velha, um martelo e um serrote, tidas como ferramentas a que chamavam suas.
A justiça deste mundo, - como iriam perceber tarde de mais - não foi coisa feita à medida de gente generosa e de humilde saber, como eles.
E José começou a sentir-se orgulhoso de poder participar com o seu esforço, na construção de uma nova cidade. Aqueles campos de trigo, entre o Campo Pequeno e o Largo do Rato, iriam interromper o uso para a lavoura, e numa pedreira que viria a ser o Parque Eduardo VII irrompia aquele imponente Hotel Ritz, para dar estatuto cosmopolita à capital do Império, que Ricardo Espírito Santo delineara com outros investidores, para corresponder ao desejo de Salazar, que lhe fizera notar subtilmente, numa daquelas noites de domingo, nas conversas que ambos tinham por hábito fazer em S. Bento.
José nunca ouvira falar o Dr. Salazar, muito menos a respeito de obras.
Mas estando a ajudar a construir prédios nas avenidas novas de Lisboa, sorria para consigo mesmo, diante da ideia de que mal chegasse à terra iria por certo deixar os seus vizinhos encantados e de cara à banda como o Miranda, fazendo correr de boca a boca, a boa nova desse desígnio nacional.
Mal sabia ou podia adivinhar, a saga madrasta que o esperava, no desdém público e nos ataques vindos de todo o lado. Como se os projectos no papel de laureados e licenciados arquitectos, não pudessem crescer no terreno, às mãos dos únicos cidadãos que se esforçavam por os erguer em Lisboa. Apanharam-lhe o fraco, transformando-os na roupa de franceses. Restava aos visados apresentar-lhes as armas de S. Francisco…
Não podiam responder-lhe de outra forma.
Como é que não podia ser boa a sua obra impregnada da matriz da modernidade urbana, quando ali na Rotunda estava o centro vivo daquela que era a capital do Império?
Será que a avenida Marquês de Tomar ou a avenida 5 de Outubro ainda deveriam ter os campos de trigo de outrora, e o Hospital de Santa Maria ou a Cidade Universitária, deveriam esperar anos por mais quantas searas semeadas?
José não estava a fazer obras clandestinas. E quanto à construção clandestina, - foi em Lisboa o que veio a ser em Paris: as barracas cá e o “bidonville”na cidade luz.
É bom recordar como o poder instalado na Direcção Geral do Planeamento Urbano, não foi capaz de dar a resposta em tempo oportuno às necessidades das populações que abandonam os campos e desceram à cidade.
Quando se verificou a descida dos povos do interior profundo para as grandes cidades, a construção clandestina foi uma resposta de emergência dos mais carenciados à procura de abrigo, nessa emergência nacional do recrutamento maciço de mão-de-obra para a Grande Lisboa e o grande Porto, onde não poderiam utilizar o mercado do arrendamento, cujas famosas rendas fixas de um conto cento e dez escudos, não se podiam aplicar a operários chefes de família, a ganharem pouco mais de metade do valor dessa renda.
As construções clandestinas nos anos 1960 em redor de Lisboa foram a única saída para grande parte da população cujos rendimentos baixos não permitiam o luxo de uma casa construída numa urbanização onde a venda dos lotes obrigaria a preços proibitivos para suporte das infra-estruturas básicas - água, esgotos e luz.
Ter duas casas, uma nos arredores da cidade e outra na aldeia, ainda acabaria na mira predadora do fisco jacobino, como se de “sinais exteriores de riqueza” se tratassem.
Valha a verdade, que ter duas casas era neste caso, o sinal de alguma insegurança herdada e que pouco ou nada representava quanto à solidez económica no futuro. Em vez de sinais exteriores de riqueza, aquelas duas casas era a prova real da insustentabilidade de um país, cujo povo não sabia como e onde viver para todo o sempre.
Depois, por não ter trazido da sua aldeia os conhecimentos que muitos outros na cidade nunca cuidaram de obter, nomeadamente, no planeamento e no urbanismo.
Coitado do Zé. Aqui feito, como mais um dos filhos da Candinha…
Quiçá, um novo José da Fonseca Peres, de Abrantes, o modelo da inspiração para o “Zé Povinho” que Rafael Bordalo Pinheiro haveria de trabalhar no seu atelier das Caldas da Rainha.
Na “Barroca da Praça” tinha José Peres a sua casa, alojamento para uma charrete, respectiva mula e um criado. José Peres vivia dos seus rendimentos e da sua casa saia ele para a sua vida na charrete conduzido por um serviçal. Homem simpático, um tanto baixo, atarracado e dava nas vistas por usar colete e jaqueta cujos botões eram libras, libras ouro, autênticas, de cavalinho, e abundante corrente de libras ligada ao seu relógio também de ouro. Tendo aparecido na arcada do Terreiro do Paço com tal indumentária foi visto pelo ainda não ultrapassado grande caricaturista que foi Rafael Bordalo Pinheiro, que o caracterizou com o título de “Bezerrinho de Ouro”
Era assim, que se trabalhava em Lisboa. E de um dia para o outro, já se viam homens feitos, com o encargo de fornecer casas para a população que ia crescendo e precisava de as arrendar.
Acabados de chegar das províncias, viram-se feitos heróis e vedetas de uma nova Lisboa a ferver de vigor.
Jovens e homens feitos, que mal sabiam a tabuada, para contar tanto dinheiro. Faziam da taberna, do café e da leitaria da esquina o seu verdadeiro escritório, onde outros clientes não deixariam de notar toda aquela movimentação de “massas”. E acabava por ser o encanto da filha ou a sedução e a malícia mais atrevida da mulher do comerciante, que acabava por anotar os recados como se fosse a recepcionista simpática do escritório que ainda não sonhavam vir a ter, com todo o agrado por ver a cada dia, mais clientela na loja.
Algumas jovens mulheres e outras menos jovens, mas mais sabidas, não desdenhavam em virem-se mostrar ou mostrarem uma filha ou uma irmã mais nova, no secreto desejo de verem de seguida um desses jovens empreiteiros a rondar-lhes a porta. No fim de contas, eram esses empreiteiros quem sabia construir aquilo que elas nesta vida terrena mais valorizavam e mais sabiam apreciar: as casas em Lisboa.
Casas em cujas quatro paredes, essas mulheres feitas criadas de servir por Lisboa aprenderam a cuidar como ninguém mais o sabia fazer.
Era toda uma atmosfera misteriosa. Tudo factores que reuniam a necessária empatia de paixões variadas: sedução, amor, paixão, cobiça e ódio. Tudo isso, ia germinando por Lisboa.
A um dado momento, um jovem empreiteiro, embriagado pelo sucesso repentino, entrava num stand e escolhia um bom carro e com o volante nas mãos, logo ia buscar uma das bonitas donzelas dispostas a aceitar casa posta pelo amante, transformando um daqueles muitos apartamentos que construía, no ninho de amor onde se pudesse entregar aos prazeres da vida.
José e muitos outros jovens não tinham ainda a maturidade suficiente para recolherem apreciações físicas tão directas e tão jocosas como as que começaram a ouvir pelas obras, aos seus colegas mais maduros. Foi em Lisboa que vieram conhecer, o que a realidade da vida dita civilizada lhes mostrava:
- “Olhim” aquela « boazona », já “virem”? A “gaja” n`a pára de vir à janela!
- Pudera! – dizia logo de seguida um dos mestres. - Ela já sabe que é mesmo boazona, a magana…
Palavras estranhas, que logo soavam como sirenes naqueles jovens ouvidos. Magicavam uma duas vezes e aquelas silhuetas de encanto feminino não mais lhe desocupavam o pensamento cada vez mais assanhado pelo desejo sexual.
Isto era só um começo, de todo um enquadramento potencialmente explosivo, apelativo e erótico. Naquela troca de olhares, que de inocentes já não tinham absolutamente nada, tudo poderia acontecer. E desencadear-se um fogo, um apelo lascivo, uma paixão...
Era esta a atmosfera citadina que já começava a mudar desde que naquele domingo o José e o irmão Adelino descobriram pela primeira vez Lisboa.
Para quê, carregar tanta água em cesto, se havia chegado o seu dia.
Paradoxal, quando se dava conta de que, se havia mundos melhores, então, porque regressaram os mais velhos àquelas terras que os haviam rejeitado e lhes negaram o sustento?!
Intrigante, no mínimo, tudo aquilo que sentia. O amor à terra, a saudade, tudo isso, ainda fazia parte dos conceitos demasiadamente difusos.
Não obstante, havia que escutar os mais velhos. Não augurava nada de bom fugir com a inexperiência atrás. Os tempos não corriam atrás de novidades. Imperava ainda o conceito que parecia dar razão ao que escrevera séculos atrás, o Padre António Vieira, de que o antigo já foi moderno…
A saída do 92, do Campo Pequeno, era outra. O José e o Adelino nunca mais iriam esquecer o Campo Pequeno. Foi lá que avistaram pela primeira vez na vida – naquele domingo de 1940 - uns grupos de tomarenses e peneireiros, irmanados naquelas arruadas, saídos desse prédio e de outros ao lado, alugados ao pessoal das obras das Avenidas Novas.
Os tomarenses, essa facção mais genuína dos patos bravos, destacava-se pela sua camisa branca sem gravata, debaixo de um colete e um casaco e calça de fazenda escura. Os peneireiros ficavam-se mais pelo fato-macaco bem engomado, debaixo de um casaco escuro. Se as roupas do corpo já eram diferentes, as cabeças no exterior não podiam deixar de fazer uma clara diferença.
Os patos bravos de Tomar optavam em regra por usar um chapéu, o que lhes conferia outro estatuto social. Enquanto os peneireiros não passavam da boina espanhola de cor preta ou um boné de pano meio tombado para a direita, a esconder-lhes um sobrolho e a deixar antever no outro toda a desconfiança que lhes ia na alma, sem que disso se apercebessem. Muito menos podiam compreender quanto a boina ou o boné descaído lhes dava um ar ainda mais patego. Coisa que facilitava a vida a muitos alfacinhas, que viam nisso uma forma artificial de se distinguirem. Um favor que os alfacinhas não desdenhavam, pois detestavam tudo o que cheirasse a patos bravos e peneireiros.
Florêncio pertencia já ao pequeno grupo de peneireiros que ousava marcar a diferença dos seus. À conta do uso do chapéu, mostrava desse modo um estatuto superior aos seus conterrâneos que não haviam ainda largado o boné com a pala à banda ou da boina espanhola. O que até tinha a sua coerência como indicador de um estatuto social cujo patamar o elevava à superior condição de encarregado de obras. Alguém que os próprios tomarenses já respeitavam e tratavam como um dos seus. Bem vistas as coisas só um rio os separava nas suas origens.
Um casaco e um chapéu iguais conseguiam fazer muito mais do que a ponte, cujas vigas de ferro nunca poisaram entre as margens da foz do Souto e da Serra de Tomar. Uma ponte inviabilizada pelas limitações da época e pelas contradições do pensamento das gentes aglunadas num estranho e pitoresco acordo de cavalheiros, pela negativa.
Explicando em duas penadas, os habitantes da margem da Serra de Tomar não viam com muitos bons olhos, que a ponte se construísse, por que iria facilitar os roubos nas suas hortas, tal era a desconfiança com que os tomarenses da Serra viam os seus vizinhos do Souto.
Contrapunham os comerciantes das mais de vinte tabernas do Souto, que sendo o vinho de Tomar mais forte e de melhor qualidade, uma vez feita a ponte, logo os fregueses deixavam de lhes comprar o vinho, correndo a engrossar o negócio do comércio vinícola da Serra, arruinando o deles.
Com os autarcas de então, irmanados neste pacto negativo, as autoridades oficiais, logo viram ali um bom pretexto, para carregarem as vigas para outro lado. Tanto mais, que a albufeira do Castelo de Bode já se desenhava e a haver ponte, teria que ter outra dimensão e maiores custos financeiros. Abrantes não se comoveu, mesmo sabendo que com aquela ponte, iria ficar 12 km mais próxima de Tomar. O orgulhosamente sós, falou mais alto.
Os grupos de tomarenses e abrantinos que se iam amontoando, à saída do 92, e de outros prédios na vizinhança do Campo Pequeno, começavam a encetar outro tipo de convívio. Para trás ficara o cajado que traziam à missa, prontos a iniciarem com ele uma luta de jogo de pau no meio do adro, sob o mais leve pretexto ou conflito pessoal, como o fizeram gerações mais velhas, nas suas terras de origem. Os ares de Lisboa davam-lhes agora, outra postura mais sociável.
Pese a estranha e sublime ironia, de que essa mansidão pudesse ficar associada àquele largo com a Praça de Toiros ao centro.
Bastaram uns tocadores de harmónio, mais uns tocadores de guitarras, de banjo e os ferrinhos e “pandeiretas” com umas “castanholas” a soar debaixo da mão esquerda dos restantes acompanhantes, para logo se criar um ambiente de grande cumplicidade e amizade, que perdurava tarde fora pelo Campo Pequeno e chegava até uma ou outra obra, nas Avenidas Novas ou no Bairro de Alvalade, onde sempre se cruzavam com os festejos e os petiscos do dia do pau de fileira, ocorrido de véspera.
Molhada a garganta e ao som daqueles instrumentos e cantares, lá seguiam passeio fora até terminarem a dar meia volta final pelo largo do Campo Pequeno, chamando sobre si, o olhar entre o surpreso e o deleite de quem sempre acabava por acusar umas reminiscências das suas origens camponesas, desde o Minho ao Algarve. O que em abono da verdade se diga, eram quase todos os que andavam naqueles tempos por Lisboa.
Como alguém nunca se esquecia de frisar, de Lisboa, só mesmo os Mouros…
Foi esta a cidade capital, do prá frente é que é Lisboa, que o José e o irmão Adelino vieram encontrar. O Adelino, lembrava o pai de que já vira numa esquina atrás, uns sapatos muito bonitos…
- …Sapatos nunca! – atalhou o pai com ar de censura. Sapatos não são para os meus filhos…
- …Mas, eu queria uns …
- …Não queres coisa nenhuma e caluda, os sapatos são para os maricas, porque os homens a sério, só calçam botas. – e arrumou desse modo a conversa deixando os filhos esclarecidos de uma vez por todas.
Ao outro dia estavam bem cedo na obra. Começaram por escolher e separar pedras por tamanhos, numa pedreira do outro lado da Rua Joaquim Aguiar, onde se viria a erguer o hotel Ritz. Ao fundo o que haveria de ser o bonito Parque Eduardo VII, não era senão um grande fosso de pedreira, que já começava naquele inverno a encher-se de água e a fazer a delícia de uns brincalhões sempre prontos a “castigar” os novatos numa caça aos “gambuzinos”, no meio desse charco…
Uma artimanha sobre uns bichos que todos gabavam como excelente pitéu, mas que ninguém antes lhes viu a cor.
Agora, para os filhos do encarregado dos carpinteiros esperava-os a escolha das pedras.
Acharam até curiosa a semelhança do escolher das pedras como quando haviam ajudado o avô a subir as paredes de pedra seca que seguravam os socalcos, nas ladeiras do rio Zêzere. E bem lá no fundo, esperavam que o encarregado lhes reconhecesse já o saber de mestres no ofício de escolher a pedra.
O chamamento de “oh caeiro” para cá, “ oh caeiro”, para lá, cedo os levou a compreender que esta gente por Lisboa, não tinha lá muito apreço pelos recém-chegados. Um ou outro pedreiro tomarense, volta e meia lá deixava cair o epíteto de “peneireiros”, o que ainda mais os desagradava.
Todavia, umas semanas decorridas e agora já os moços sabiam responder-lhes à letra, sempre que o chamamento passava por peneireiros. Respondiam logo de pronto:
- Quah!, quah! – O que fazia a maior parte do pessoal, - menos os tomarenses claro – rir a bom rir, perante o incómodo dos visados. Um bom pretexto para os serventes minhotos e beirãos, e os mestres estucadores de Pombal - mais os alentejanos – se ressarcirem do predomínio elitista dos tomarenses. Os mestres carpinteiros de Abrantes, como não podia deixar de ser, viam crescer ainda mais o seu estatuto.
Quanto aos alentejanos, tinham razões de sobra - um especial e secreto prazer – para se vingarem dos mestres tomarenses. A afronta dos tomarenses nas obras – onde eram mestres – ia ao requinte de fixarem as categorias de pessoal, nessa valia decrescente: primeiro, eles os mestres, depois os meios oficiais, os aprendizes, os serventes, relegando os alentejanos para uma quinta categoria, abaixo de servente. Aliás, bem visível quando qualquer mestre pedreiro tomarense fazia questão de enumerar quanto pessoal trazia consigo nas obras:
- Na obra, trago tantos pedreiros, xis serventes e mais uns alentejanos! – o que era bem elucidativo do fraco conceito do seu modo de trabalhar e, da baixa estima e consideração em que tinham os alentejanos.
José e Adelino chegaram como serventes até chegar a hora de subirem à categoria de meios oficiais de carpinteiro. Era assim que se começavam as vidas, naqueles tempos. Se subiram depois a escala profissional para sub-empreiteiros e empreiteiros e construtores civis, foi porque outros mais apetrechados intelectualmente – engenheiros e arquitectos – não colheram os devidos ensinamentos nas escolas, do empreendedorismo.



