Uma terra no centro do país, entre o maior rio ibérico - o rio Tejo, apenas no sobejo da barragem de Alcantara, em Espanha - e o seu maior afluente , o rio Zêzere - com onze barragens, a maior das quais como reserva de abastecimento de água a um terço dos portugueses sediados e sequiosos da Grande Lisboa.
Foi essa barragem que determinou há mais de meio século o êxodo maciço dos habitantes dessa maior freguesia do concelho, terra de muita cereja, que chegou aos mercados de Lisboa, como assinalava o pároco local nas respostas aos Inquéritos Paroquiais, de 1758, ordenados pelo Marquês de Pombal.
As suas gentes antes de se notabilizarem como grandes artífices da construção civil, que o génio do Engº. Duarte Pacheco saberia com mestria aproveitar no Bairro de Alvalade e nas chamadas “ Avenidas Novas”, a partir de 1938, já antes, souberam dar provas de grandes empreendimentos nas suas terras. Conquistaram às encostas da bacia do Zêzere todos os palmos de terreno que era possível semear, através da construção de grandes obras de engenharia, patentes nesses quilómetros infindáveis de paredes a pedra seca, com que sustentavam os chamados tabuleiros de terra de semeadura e de plantação de cerejeiras, oliveiras, castanheiros, figueiras e as videiras nas bordaduras. Foram esses socalcos mais férteis que ficaram submersos com a subida das águas da barragem.
Esses quilómetros de paredes de pedra seca são o fruto dessa cultura templária. Percebe-se e sente-se que por ali residiu muito do espírito dos monges construtores.
Palmo a palmo, aqueles terrenos foram conquistados às encostas íngremes das margens do rio Zêzere. Com as pessoas agarradas à terra desse modo, não admira que se mostrassem ciosas de tudo quanto era seu. Daí, a anedota que correu por outras terras de que os habitantes do Souto, um dia porque vissem um melro de bico amarelo, o teriam perseguido com tamanha raiva, confundindo o amarelo do bico com uma cereja que o pobre pássaro pudesse levar roubada.
Mas, se Alvalade, Olivais, Moscavide, Benfica e Amadora foram destinos urbanos que recolheram o esforço das gentes das margens do Zêzere, nem por isso
Como se não bastasse a desgraça que caiu sobre o avô, regressado da guerra de Moçambique, com Mouzinho, para acabar morto pelo deslizar de um calhau que ajudara a escavar nas encostas, sobranceiras ao rio, que anos depois iriam ficar submersas. Não obstante eram essas contrariedades quem mais enrijava a esperança de melhores dias.
Era o avô, quem escolhia as pedras envoltas na própria terra e que as ia empilhando uma em cima de outra, a fazer crescer metros e metros de parede, nivelada pela altura dos seus ombros, os únicos que as carregaram uma a uma, com a heróica finalidade de suster um tabuleiro nivelado de terra nova, conquistada ao declive íngreme da margem do rio. E assim ia crescendo mais terra de cultivo na vertente para o rio Zêzere, contrariando a natureza, mas mal sabendo ou adivinhando que lá no Terreiro do Paço alguém já desenhava o leito máximo de enchimento da albufeira, a um nível que tudo submergia. Literalmente, de costas voltadas ao rio, cresceram as terras em socalcos, que esse mesmo rio a mando dos homens do Terreiro do Paço um dia decidiram que tinha que criar albufeira e dar energia a todo o Vale do Tejo até Cascais. E a um liceu e uma fábrica algures em Santarém, por onde passara Duarte Pacheco em viagem de trabalho.
De costas voltadas para o rio a norte, obrigava o avô a permanecer com o rosto mais exposto ao sol, o criador do sustento, enquanto durasse esse interregno até à chegada das águas da albufeira.
Um dia, uma pedra mais pesada desabou sobre um pé. Levado às costas por um primo possante, foi descansar da ferida na cama. A infecção não parou. Gangrenou. Subiu ao corpo.
O herói de Chaimite, que escapara às catanas dos indígenas moçambicanos, acabava ali naquela terra aonde regressara, depois de dobrar segunda vez o Cabo das Tormentas.
Eram essas terras do avô que ele abandonava agora, quando o outro avô – o paterno – havia regressado há dois anos atrás, meio adoentado pela ferida num pé, que acabou amputado, devido à queda de um aro metálico quando trabalhava na tanoaria do Poço do Bispo, onde era encarregado. Foi esse avô carpinteiro feito tanoeiro, que levou o pai do José para Lisboa. E nessa época não faziam as viagens de camioneta. Iam a pé, borda de água abaixo.
Foi nesses intervalos da doença do avô e com outro tio a orientá-los, que o José e o irmão foram aprendendo os primeiros ensinamentos da arte de carpinteiro, a profissão que lhes valeu para o resto da vida, a peculiar progressão na carreira.
As terras de um e outro avô ficariam para depois, quem sabe quando um dia regressassem. Entretanto, ficava pela terra a mãe e a irmã, a administrarem as fazendas e a aplicarem algum do escasso dinheiro nessa faina agrícola, pois o grosso do dinheiro seria para o pai aplicar um ano destes na compra de mais um pedaço de terra de cultura ou num pinhal, que desse madeira para as moradas de casa dos filhos e ainda uns cortes de pinheiros nos intervalos, para com isso pagar outras fainas agrícolas.
Trabalhar uns anos em Lisboa e um dia regressar com um pé-de-meia era a meta estabelecida, pelo menos desde há duas gerações atrás.
A casa e as terras sempre foram a matriz de vida, segundo rezava a memória dos avós e de todos quantos os antecederam. Apascentar o rebanho de ovelhas e cabras, uma missão imemorial, até já constava da Bíblia
Barragem de Castelo de Bode
Em 60/80 anos, tudo como dantes
Em Setembro de 1932, o ministro Duarte Pacheco visitava o novo Liceu Nacional Sá da Bandeira, em Santarém. – « Escureceu. Arrancou um gerador e acederam-se algumas lâmpadas. Remedeio, Senhor Ministro.(…) Falta-nos a barragem. Uma grande barragem no rio Zêzere. Maurice Ginoux [ famoso geólogo francês] viera de Grenoble para os primeiros estudos do Castelo de Bode.»
Vide biografia de Duarte Pacheco, “ Cova do Lagarto”, de Filomena Marona Beja.
Em 1931, no decorrer do 1º Congresso Nacional de Engenharia foi feita outra menção à barragem do Castelo de Bode, pelo Engº Ferreira Dias, um entusiasta da rede eléctrica e professor no IST, onde Engº Duarte Pacheco era o director.
Em 1940, o Engº Zuzarte de Mendonça condensou os estudos. Em 1941, Duarte Pacheco procede à revisão com o especialista de barragens, André Coyone.
Em 1943, decidia-se a construção com um terço de capitais do Estado, outro terço de empresas produtoras de electricidade e o resto por subscrição pública. O acidente que acabou na morte de Duarte Pacheco, terá atrasado a obra.
As obras do projecto de André Coyne avançaram em 1947.
As expropriações das terras a inundar estavam centralizadas em Tomar, a cargo de um negociador implacável, um tal Vilas Boas, de má memória para os expropriados. Abrantes ficou de fora.
A carreira do Souto para Abrantes, parou anos, por falta de pneus. Os comerciantes do Souto cansados de verem os fregueses a caminho da Serra de Tomar, nos despachos e nos embarques para Lisboa, temeram ainda mais a fuga dos seus clientes para Tomar, atrás do melhor vinho. Enquanto, os fazendeiros de Tomar receavam mais roubos às suas hortas, através da ponte. As vigas de ferro para a construção de uma ponte entre o Souto e a Serra de Tomar permaneceram depositadas na ladeira da Carvaceira, entre 1933 e 1937, como escorrega para a miudagem do Souto, à saída da escola. Perdeu-se a ponte, ingloriamente.
A cidade de Abrantes, fria e distante vivia a euforia das grandes obras: cine-teatro S. Pedro, Casa de Saúde, Hotel, Escola Técnica, o La Salle.
Enquanto isso, Lisboa desde a primeira hora nunca deixou de pensar na água da albufeira, até a obter em 1987. Abrantes decidiu procurá-la em 1990, mas só lá chegaria em 2002, mas fora do percurso turístico mais frutuoso para a Bandeira Azul, na saída de S. Lourenço para o Paul, teimosamente blindado por 6 km de estrada abandonada, em terra batida. Preferia a volta pelos 22 km via Sardoal.
Em 1985, em 1995, em 2003 e em 2005 ardem vastas áreas envolventes à albufeira. A água da albufeira gerava milhões em Lisboa. E no início do fogo de 2005, o primeiro carro dos bombeiros saiu de Abrantes, com 4 horas de atraso.
No rescaldo de 2005, o pároco lê no Norte do concelho, durante as missas, uma carta de um governante recomendando aos traumatizados e empobrecidos proprietários, a limpeza urgente das cinzas dos seus terrenos, não fossem poluir as águas de Lisboa. Nem explicou, como recolher as cinzas amontoadas.
Em 2011, a EPAL anunciou 200 milhões de euros de investimentos e a poupança de 11,7 milhões - 12 % da sua facturação na cidade, fora o que vende aos 18 da Grande Lisboa.
Em 2011, a EPAL convidou o ICNB e o GEOTA, a Câmara de Abrantes a colaborar no Projecto Nascentes para a Vida, e “na identificação dos locais e respectivos proprietários de parcelas de terreno,(…) no intuito de prevenção e redução do risco de incêndio e nas campanhas de sensibilização junto da população em geral”.
Só o Posto de Bombeiros, numa das cinco freguesias do Norte do concelho - onde não faltam escolas encerradas, bem úteis aos bombeiros – é que continua à espera das migalhas da EPAL. O povo do Norte convida a EPAL a pensar noutras responsabilidades. Se não lhe causar demasiado incómodo, claro.
(continua...)

