Companheiro Paulo Portas, todas as lideranças têm um fim.

ALDEIA de MATO e SOUTO com a sua "UNIÃO" tem o caminho aberto para serem a MAIOR e MAIS PROMISSORA FREGUESIA do CONCELHO de ABRANTES. Basta saber livrar-se uns "certos jumentos" da canga autárquica...

terça-feira, 8 de novembro de 2011

4.231 - " HISTÓRIAS do SOUTO" - ( VI )

Desde o post 4.225 de 6 Novº último, que se vêm pub licando alguns textos das "HISTÓRIAS do SOUTO".
Os interessados poderão procurar os mesmos, no arquivo deste blogue desde o post 4.225.A

Textos da autoria de João Baptista Pico


A CAPELA E A FONTE SANTA

A via romana, a velha estrada da Beira, o Castelo de Capris, a velha ponte dos Mouros, todos locais de passagem de grandes e nobres exércitos. Nessas imediações se juntaram as forças do Mestre de Avis, com as de Nuno Álvares Pereira.
Contraste num vasto concelho, que sempre esteve no cruzamento de civilizações.
A Capela poderia hoje ser o cruzar de peregrinações tão famosas como as Vias de Santiago ou como a rota dos Templários, se fosse decifrado um enigma escondido algures numa ermida templária entre a ribeira de Codes e a ribeira da Brunheta, para onde segundo se diz, recuaram os exércitos cristãos face à investida dos Mouros sobre Tomar e Leiria no ano de 1135.
Qual Capela de Chartres ou Igreja Copta desses mistérios que os cavaleiros de S. Bernardo de Claraval tanto procuraram nas ruínas do Templo de Salomão. Só que os escritos sobre essa ermida nunca apareceram.
Animaram-se as rotas dos Templários por terras de França, depois dos escritos de Dan Brown. Por alguma razão a França é o primeiro destino turístico do mundo. Tudo se constituiu num incremento turístico assinalável depois desses inúmeros “best-sellers” de Dan Brown e outros, como os segredos guardados pelo pintor Da Vinci. O “Homem de Vitrúvio”, conheceu outro significado. Entendamo-nos, o arquitecto romano Vitrúvio, para além da dimensão que nos deu da arquitectura de Roma, também fixou a verdadeira dimensão métrica da natureza humana, que Da Vinci pintou.
Portugal é o décimo sexto destino turístico mundial, mas em termos de impacte cultural ficará muito aquém dessa classificação.
E começa-se a perceber melhor a razão dessa pobreza cultural, quando quarenta ou cinquenta anos de festas consecutivas e de relativo sucesso com dezenas, depois centenas ou milhares de contos, na moeda antiga, circularam pelas mãos de conjuntos musicais, de artistas de variedades após uma passagem pela rádio ou televisão. Contudo, a própria ermida continua sem um Santuário.
Ou pior ainda, teimam em ver num largo com uns barracões e umas construções avulsas - um Santuário - só porque foram obras clandestinas feitas pelas sucessivas comissões de festeiros, pouco importando a duvidosa qualidade e natureza dessas obras, no meio de terra batida cercada por pinheiros, mato e eucaliptos. Muitos eucaliptos a “afogarem” a ermida, indiferentes ao perigo dos incêndios que rondam por perto todos os verões.
Obras houve, em que o Santuário envolvente foi preterido pela opção da construção de uma torre anexa, com muitos metros de altura, cuja “humilde” finalidade se resumia na possibilidade de ser avistada ao longe devidamente iluminada. Como se isso fosse realmente o mais importante.

Pelo menos dava mais nas vistas. Nada mais a acrescentar.

A Fonte Santa no vale deixou de ter acessos e acabou abandonada. A preocupação em elaborar um percurso peregrino, pela ladeira abaixo, recriando centenas de anos de caminhadas em devoção e em desejosa intenção de chegar àquela água que se dizia milagrosa para muitas enfermidades foi barbaramente liquidada pela construção de um poço, em cima do qual colocaram um fontenário com torneiras galvanizadas e uns azulejos modernos, voltados para o adro da capela.
A opção poderia ser outra em 1950. Nunca um poço com dezenas de metros de profundidade, com a elevação da água feita de forma mecânica por uma bomba de sucção, de dar à manivela numa roda de ferro. Fica a dúvida, se o fontenário, não foi o pretexto para poder afixar uma lápide em cantaria, com os nomes dos festeiros?!
Na “beata” devoção daqueles festeiros, esses nomes permanecem com o direito adquirido pela obra feita. Só dos Templários nada resta escrito.

A excepção de uma “cruz orbicular” esculpida na base inferior externa da pia benta, que as mãos de um conterrâneo mais perspicaz procurou tacteando com os dedos da mão esquerda e encontrou com alguma felicidade, durante a celebração de uma missa a meio da semana.
E logo ajoelhou amparando-se com a mesma mão, agora agarrada na borda da própria pia benta, enquanto levando a mão direita ao bolso interior do casaco, retirou um isqueiro e iluminou a base inferior.
Espantado nem queria acreditar naquela espécie de trevo de quatro folhas. Que sorte! Que é o que dá o trevo de quatro folhas.
Uma espantosa descoberta. Não partilhada por duas senhoras já muito velhinhas, a quem aquele ritual do intruso “descobridor”, desviara a atenção da celebração da missa. E não tiveram acanhamento algum em reprovarem com o olhar semelhante abuso, como se fora uma profanação.
Dado conhecimento ao bom do velho pároco, na sua extrema simplicidade haveria de partilhar com os seus paroquianos aquela importante descoberta, durante a homília nesse domingo na Matriz.
Tanto bastou para um grupo de “Irmãos”, com aquele sentido desconfiado que os fez garantes da Casa do Senhor, logo acorresse à apela e retirasse a pia benta e a guardassem a sete chaves, da cobiça dos amigos do alheio.

Por feliz coincidência que mais corroborou o achado a pia benta estava profundamente encravada na parede, mas calçada pelo encaixe natural do alinhamento das pedras da parede, o que provava que já ali havia sido locada, no momento da feitura da parede.
A pia benta era a original e tão antiga como a capela…
Mas, não foi isso exactamente, o que aqueles bons cristãos perceberam naquela hora. Apenas, acreditaram que tinham salvo algo de antigo e como tal valioso. E enquanto uns iam comentando esse feito heróico, outros paroquianos na saída e missa da semana seguinte, já duvidavam da generosidade dos primeiros.
O sentimento deste povo cristão, não consegue libertar-se plenamente das desconfianças que já os perseguiam há dois mil anos…
E não tardou mesmo nada que não houvesse já uma série de pequenas conspirações. A culpa foi do padre, não tinha que dizer estas coisas na homília. É verdade, logo assentaram outros. Só dizia este segredo aos da “Irmandade”, acrescentava o outro. Enquanto à boca pequena, uma beata resmungava : « pois sim, dizer-to a ti era pôr na boca de todo o mundo. Quem não te conheça, bem asno…»
De contradição em contradição, a roda da suspeita rodou a todos.
É caso para perguntar : quem consegue ser pároco numa paróquia destas?
Valorosa obra feita, se quisermos ignorar a água da Fonte Santa, hoje envolta em matos e silvados.
Quem sabe, preservada das mãos destruidoras e menos cuidadas do homem.
Naqueles três dias de festa em cada ano, só o barulho dos foguetes e da música parece ser o mais importante. E o mais eficaz a estontear as cabeças daquelas gentes embriagadas por uma má réplica de “festangada”, que só alguns saudosistas teimam em chamar a festa.
A grande festa da terra.
Hoje em dia com menor afluência de gente. Tão poucos e velhos, que ao longo da noite o largo mais vazio vai dando lugar ao avanço dos carros para se chegarem mais perto dos coretos das músicas. E dentro das viaturas, as crianças estendidas nos bancos de trás, dormem descansadamente indiferentes aos barulhos das grossas colunas de som, enquanto os adultos, nos bancos da frente voltados para o écran gigante dos seus pára-brisas desfrutam do espectáculo, com a mesma comodidade com que em casa assistem à telenovela do momento.
O “reality – show” da festa em toda a dimensão. E por entre o fumado dos vidros, ainda conseguem essa preciosidade aldeã - de que nunca se desembaraçaram - de poderem ver quem passa sem serem vistos ou distinguidos na sua identidade.
Adeus convívio. A confraternização já era...
Quanto à festa religiosa, nada que tenha a ver com as casas de recolha de romeiros e das residências do pároco, ou do ermitão que se assinalavam num alvará régio do séc. XVII.
Nem é de crer, que algum destes dias mais próximos surja alguma dessas comissões de festeiros interessada em recriar essas obras e mobilizar os apoios nesse sentido. Será mais certo esperarmos a aplicação desse dinheiro, em mais um barracão para guardar as mesas e cadeiras da esplanada das festas, do que em requalificar o Santuário.
A diferença entre França e Portugal, não está só em que uma é a número um no destino de turistas mundiais e o outro é o décimo sexto.
A diferença alguma razão mais, haveria de ter. E tem.
Está também naquela singular amostra de confraternização, onde as famílias se agrupam em redor de um carro de boa marca, a merendarem e a retirarem da geleira as comidas e bebidas do seu lanche.

Falam em tradição. Mas, a tradição não incluía nesses tempos longínquos um Mercedes, carregado de comidas e bebidas, atravessado no meio do arraial, onde a exuberância do dono e seus familiares se fazia sentir, no insistente abrir e fechar do carro com os apitos incómodos do comando automático e sinal de alarme por cada vez que queriam abrir uma cerveja ou retirar um gelado ou uma sanduíche.
Muito menos, com o dono do Mercedes de perna alçada sobre os cromados do pára-choques e o braço estendido com uma cerveja, enquanto gritava todo sorridente para um amigo que ia a passar.
- Oh, Zé! Eh, pá, queres uma cerveja? Chega aqui, que eu cá, ainda tenho muitas mais na bagageira. - e não perdia a oportunidade para chamar a atenção para o seu sucesso económico, perante aquela plateia de curiosos que nunca deixavam de ficar embasbacados com tamanho alarido. - Bebe à vontade, pá. Se for preciso, ainda aqui tenho umas notas na carteira para ir buscar mais umas grades de cerveja. Vá bebe lá uma desgraçado...

A festa agora era esta. Era a expressão desabrida de quem partira com um cabaz às costas e umas calças remendadas e agora se sentia um homem rico e sem muito tempo e vagar para o mostrar. Depois daqueles três dias de festa teria que regressar imediatamente a Lisboa, para tomar conta das obras e do pessoal. Num vaivém frenético, esgotante, não recompensado inteiramente.
Hoje, lá estão as casas sem os seus habitantes, os quintais com umas pontas de silvas a espreitarem sobre os muros, um reboco com a tinta saltada, um caixilho a querer perder o vidro, o musgo onde antes reluzia o ocre do rodapé. Uma vida de correrias a desgastar os fins de semana sem descanso. Podia ter sido melhor gasto o tempo.
E no intervalo ir bater à porta do gerente do banco levar-lhe um garrafão de azeite da terra, a forma mais eficaz que conhecia para deixar a porta aberta para mais uma letra ou uma livrança.
Quando não se dava o caso de ter já uma em último dia, por pagar... E sem saber onde ainda parava o dinheiro para a reforma ...da letra ou da livrança.
Mas, não eram estas preocupações financeiras que quebravam a tradição daquelas festas. Estas preocupações nunca chegavam ao conhecimento da família. Nem a mulher sonhava com elas sequer. Daí, o ar despreocupado das mulheres, mais gordas e mais vaidosas. E demasiado tagarelas, a enumerarem os gastos caseiros para as amigas e familiares, sem nunca desconfiarem de que muito desse “desafogo” durava só mais 60 ou 90 dias, precisamente, a folga concedida pelo vencimento da próxima livrança.
Porque a verdadeira tradição era outra.
A tradição era um cabaz bem pesado a rodar de cabeça em cabeça entre as mulheres e raparigas da família. Uma manta estendida sobre o mato roçado nesse inverno anterior, à sombra dos pinheiros, que nesses tempos nem sequer ardiam. E quando havia fogo, uns cântaros de água à cabeça das mulheres e as roçadoras e as enxadas nos braços de um punhado de homens, resultava em maior eficiência do que os auto tanques de hoje.
Que fogos são estes afinal, que ardem com tamanha rapidez e intensidade?
Vá lá saber-se porquê?!


O ALDEÃO CHEGADO DE LISBOA

A partir dos anos 60, o resultado dos bairros periféricos da grande Lisboa, de Benfica, Moscavide e Amadora criaram um novo homem. Os novos ricos feitos patos-bravos desejosos de mostrarem o seu novo estatuto social.
No sorriso, um dente de ouro. E como passavam a maior parte do tempo com o volante de um Mercedes nas mãos, a cabeça ficou mais vazia. Retiraram o uso do chapéu...
As regras da sã convivência começaram a mudar.
A chamada de um amigo implicava um sonoro buzinar, com aquelas misturas de sons próprias das buzinas. Sons alarves, como as gargalhadas de alguns.
De fazer corar qualquer alma piedosa e crente, incomodada com aquela exuberância, tão pouco saudável e menos própria num lugar tão carregado de mística e de religiosidade, como era o caso daquele Santuário.
- Deus me perdoe, mas aquela gente nem sabe que está a pecar. - Queixava-se uma idosa mais temente a Deus e à Santa. Quem os viu e quem os vê! - era a sentença proferida por alguma velha devota, que já havia visto muita coisa no mundo, depois de se benzer três vezes.
Ou pior ainda, como era essa tendência doentia da manifestação de vaidade de todo e qualquer festeiro, no decurso da festa, logo depois da procissão, em subir ao palco e pegar no microfone e chamar os amigos, através da aparelhagem sonora. Um espectáculo de pedantismo sem igual.
- “ Atenção, peço a comparência do Sr. João Maria junto à cabine de som mais o Sr. José da Conceição, e o Sr. Manuel do Carmo . Que estou daqui a vê-los - gritava o festeiro, fazendo toda a gente virar-se para onde ele apontava.
E todos cochichavam entre sorrisos cúmplices:
- Olha, olha, lá está o João Maria, olha está com o Manuel do Carmo. Acotovelavam-se uns vizinhos também satisfeitos por estarem a chamar os familiares ou amigos.

Um ou outro parente ou amigo, sempre subserviente passava e ia sorrindo para os pequenos grupos e perguntando com segundas intenções :
- Vocês ouviram o Manuel Zé a chamar pelo João Maria ? O Manuel Zé é danado de todo. Já está a chamar os festeiros todos à pedra. Ele quer mais música e animação. Não tarda começam os foguetes a estoirar... Só há conta dele foram dez dúzias de foguetes de “trós-trós”, mais outras dez dúzias de tiro e três tiros. - E lá abalava aquele pobre diabo satisfeito consigo mesmo.
As pessoas de outras terras é que não gostavam da exuberância e costumavam mostrar algum desdém por tamanho exibicionismo pacóvio daqueles novos ricos. Enquanto os chamados permaneciam como que indiferentes - num imobilismo manhoso, como que estudado - vendo na demora em responderem o lucro de lhes repetirem os nomes.
A sublime vaidade pessoal a isso obrigava. Contentavam-se com tão pouco. Mas era esse tão pouco o que muito iria destruir o ambiente de confraternização que se começava a perder.
Ouvir o seu nome nomeado várias vezes no decorrer da festa era já um vício. Um total desprezo pelo sentimento de humildade cristã.
Eram assim aquelas festas. As festas da vaidade, como muitos lhes chamavam.
E a freguesia podendo ser excepção, nunca o quis assumir.
Convenhamos, aquela exuberância pessoal misturada tão atabalhoadamente com a intenção de Fé, na vinda à festa da Santa era o forte alimento daquela força interior que os fazia vir ali dar uma “esmola boa para a festa” e criar a verdadeira motivação para que aquela festa continuasse a existir.
Não importava tanto a finalidade e a aplicação da esmola. Isso era coisa para o padre se preocupar, porque tinha vagar para isso. E era para isso que a gente lhe pagava a côngrua.
Os visitantes de fora, sempre que resmungavam e protestavam estavam a ignorar a sua condição de visitantes, que como tal tinham que se comportar submissos e reverentes.

Mas, nem sempre uma boa alma cristã conseguia resistir a tamanha provocação…
Contraste deste concelho situado no centro do país, entre o maior rio ibérico - o rio Tejo, no sobejo da barragem de Alcantara, em Espanha e do transvase da Estremadura Espanhola - e o seu maior afluente , o rio Zêzere - com onze barragens, a maior das quais como reserva de abastecimento de água a um terço dos portugueses sediados e sequiosos da Grande Lisboa.
Foi essa barragem que determinou há mais de meio século o êxodo maciço dos habitantes dessa grande freguesia do concelho, onde antes cresceram cerejeiras, castanheiros, carvalhos, oliveiras e boas parreiras a darem um vinho “labrusco”, de beber e chorar por mais, como rezam as crónicas…

A freguesia, não ficou só conhecida como terra de castanheiros e de muitas castanhas. Também era terra de muitas frutas, principalmente, de muitas cerejas, que chegaram aos mercados de Lisboa, como assinalava o pároco local nas respostas aos Inquéritos Paroquiais, de 1758, ordenados pelo Marquês de Pombal.
Terra de muitas árvores de lenhas e madeiras e de muitos serradores.
As suas gentes antes de se notabilizarem como grandes artífices da construção civil, que o génio do Engº. Duarte Pacheco saberia com mestria aproveitar no Bairro de Alvalade e nas chamadas “ Avenidas Novas”, a partir de 1938, já antes, souberam dar provas de grandes empreendimentos nas suas terras.
Conquistaram às encostas da bacia do Zêzere todos os palmos de terreno que era possível semear, através da construção de grandes obras de engenharia, patentes nesses quilómetros infindáveis de paredes a pedra seca, com que sustentavam os chamados tabuleiros de terra de semeadura e de plantação de cerejeiras, oliveiras, castanheiros, figueiras e as videiras nas bordaduras. Mais de metade desses socalcos mais férteis ficaram submersos, após a subida das águas da barragem.
Esses quilómetros de paredes de pedra seca são o fruto dessa cultura templária. Percebe-se e sente-se que por ali residiu muito do espírito dos monges construtores.
Palmo a palmo, aqueles terrenos foram conquistados às encostas íngremes das margens do rio Zêzere. Com as pessoas agarradas à terra desse modo, não admira que se mostrassem ciosas de tudo quanto era seu. Não desperdiçavam nada, tudo aproveitavam.

Daí, a anedota que correu por outras terras de que os seus habitantes, um dia porque vissem um melro de bico amarelo, o perseguiram com tamanha raiva, confundindo o amarelo do bico com uma cereja que o pobre pássaro pudesse levar roubada...
Mas, se Alvalade, Olivais, Moscavide, Benfica e Amadora foram destinos urbanos que recolheram o esforço das gentes das margens do Zêzere, nem por isso a freguesia conheceu grande desenvolvimento ou o próprio concelho do Contraste.
Construíram-se uns edifícios grandes - as colectividades de cultura e recreio - na modernidade das velhas “Casas do Povo”. Mas, no seu interior nada vingou.
Não se criou uma única biblioteca.
Ninguém teve vagar para pensar numa coisa dessas.
Fez-se um campo da bola, mas pouco tempo depois já se haviam incompatibilizado os jogadores entre si. O equipamento de 15 calções e outras tantas camisolas já não aparece nem metade. Quanto às botas desapareceram todas.
Fizeram-se dois ou três espectáculos teatrais, mas quando houve uma professora que quis lá levar as crianças da escola, para ensaiar, a direcção da colectividade desconfiada daquele interesse das professoras imaginou ali obra política e não quis dar a chave, não fosse a professora “tomar posse do local”. E o local era particular. Era dos sócios, não era do ministério da Educação ou do Governo.
Houve uma ou duas reuniões de sócios, convocadas por outros sócios. A reunião entre conterrâneos e amigos deu lugar à discussão dos s´cios “ do contra”, que até tinham as quotas em atraso. E, imediatamente foram silenciados pelo presidente da mesa da Assembleia. O presidente da direcção lançou uma proposta à mesa, cujo teor não dava hipóteses de contornar.
Proposta a votação, a pergunta do presidente:
- Queria saber de quem é a colectividade que tanto nos custou a construir, se é dos sócios com as quotas em dia ou é das professoras da escola?
Por unanimidade e por aclamação, os braços todos no ar, nem deram para perceber alguns que nem se mexeram. A maioria é que decide e manda.
As crianças cresceram e mais tarde nunca mais encararam bem com a colectividade.
Hoje em dia as portas só se abrem duas vezes por ano. No final do ano que é o dia da colectividade e pelo Santo António, data assinalada com um almoço dos rapazes da inspecção de 59 e de 60, ali confeccionado pelas respectivas esposas.
Não fora no grupo estar o presidente da direcção e mais dois vogais e nem isso seria permitido. Aliás, há muito quem fale de nesse grupo de mancebos de 59 e 60, a maioria nem sequer serem associados da colectividade. Mas, todos se calam.
Está lá o presidente. Ninguém ousa dizer muito mais...
Um dos sócios fundadores e um dos maiores apoiantes das actividades nos anos da fundação, viu recusada a sala para proferir uma palestra. Uma afronta a um dos principais obreiros e fundadores da colectividade. E tudo se ficou por um encolher de ombros...
O presidente não deixou.
Maior injustiça foi a do grande lavrador da terra, a quem lhe foi negada inicialmente o nome nessa rua, depois de ser ele o responsável por abrir a rua de acesso à colectividade, sem a qual nem a colectividade, nem o Posto Médico teriam sido construídos.
O mesmo benemérito que construiu a sede da Junta e arranjou a Casa Paroquial.
Paradoxalmente, foi na maquina de escrever da junta e na própria sede da Junta que a carta a negar provimento ao nome proposto, assinada pelo respectivo presidente , pelo secretário e pelo tesoureiro, mais o presidente da colectividade acabou por ser escrita.
- Pode lá ser uma coisa dessas?! – interrogavam-se alguns ao balcão do café.
- Debaixo do telhado da própria casa da junta, que ele mandou construir há vinte anos, foi assinada essa mesma carta miserável a negar-lhe o nome nessa rua que também ele mandou terraplanar e alcatroar. - insiste um dos presentes.
- Temos que fazer alguma coisa. - volta a carga um terceiro.
- Olha o golo do Benfica, limpo. Não há fora de jogo. A discussão aquece. Agora era o futebol, o tema em debate. Dividem-se as opiniões. Despejam-se as garrafas. Um a um todos acabam por ir saindo.

Saem todos, sem que houvesse um único ainda lembrado da injustiça do nome da rua negado ao Benemérito. Essa mesa injustiça, que momentos antes os havia juntado ao balcão, tão decididos e tão lestos a clamarem por justiça.

A memória é curta! Com os vapores do álcool, ainda evapora mais depressa…

(Continua ...)





BLOGUE PICO do ZÊZERE ABT

INICIADO em 27.10.2007

Nos idos de 1970 torneios sem subsídios mas muito amor e suor...

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Equipa de futebol do Souto, c/ João Pico a capitão da equipa ( 2º em cima à esqª.)

É esta a obra que Sócrates inaugurou e depois mandou "AFUNDAR"...

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Paulo Portas e João Pico vendo o Parque Ribeirinho...

O Urbanizador foi mesmo a Câmara, acreditem!...

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Alta tensão sobre Urbanização Municipal nas Arreciadas

Fados no Rossio ao do Sul do Tejo, ontem no Jantar dos Lyon`s de Abrantes

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Nuno Pico acompanhado à guitarra por Alfredo Gomes e na viola José Mário Moura

CIDAS, em 1975,a água de REGA no SOUTO - 10 anos antes da água dos SMAS! FUI um dos FUNDADORES!

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E desafiei o então presidente, Engº José Bioucas a ir à albufeira do Castelo de Bode connosco buscar água para a freguesia e para ABRANTES. Só que o Engº riu-se... E só em 2001 é que lá foram à albufeira... Tive razão antes do tempo...

Nascido e baptizado no Souto, comigo não há dúvidas de que sou do Souto de Abrantes

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Retábulo da Matriz do Souto onde João Pico foi baptizado

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