Administrativamente, o Souto pertencia ao concelho de Abrantes. Mas em matéria de correspondência via CTT, o que imperava era a designação de “Souto – Sardoal”. Uma coisa é certa, O Sardoal ficava a metade do caminho da distância para Abrantes. Todavia, o concelho era o de Abrantes.
Todos os dias pela hora do meio-dia as mulheres juntavam-se no terreiro fronteiro ao velho edifício dos CTT no Souto, à espera que o João do Correio ou a ti Aurora do correio chegassem com a correspondência num saco às costas ou à cabeça, desde o Sardoal. O correio era seleccionado por terras e cabia ao Sr. João Portela, “o Caixeiro”, o procedimento da entrega em mão, anunciando previamente, e em voz alta, os nomes dos destinatários, geralmente as mulheres que aguardavam carta dos maridos e as raparigas desejosas de recolher as cartas trocadas com os namorados.
O ar de contentamento das felizes contempladas contrastava com o sobrolho carregado das despeitadas, que regressavam a casa sem notícias naquele dia. Sem notícias e sem uma nota metida dentro do envelope e que tanta falta fazia para acudir às despesas caseiras.E porque as cartas pudessem trazer uma nota de 20 ou de 50 escudos muito bem disfarçada no interior do envelope, sempre havia esta ou aquela, com fama de abrir a correspondência que trazia para as vizinhas e ficar a saber demasiados pormenores da vida alheia. Entre desconfianças e certezas de que fulana tinha por hábito abrir as cartas alheias à conta do vapor da panela a ferver, antes das voltar a colar e devolver ao fim do dia aos destinatários, com o envelope já muito amarrotado, de o trazer bem aconchegado no bolso do avental, depressa as alegadas vítimas se apressavam a dar instruções ao Sr. João Caixeiro, para que não entregasse mais a sua correspondência a outra gente de fora.
Porém, o que diante de tantas histórias de abusos mais me interessava saber era a razão do endereço ser o do "Souto Sardoal". Lembro-me de ainda criança ter questionado a minha avó Maria Joaquina, sobre o absurdo daquele endereço usado pelos CTT, do “ Souto – Sardoal”, quando a freguesia pertencia a Abrantes. E ouvir de alguns soutenses outras conversas, caprichando no que consideravam ser o procedimento legal, que mais os motivava para o uso de outro endereço: “ Souto-Abrantes”.
Porém, o que diante de tantas histórias de abusos mais me interessava saber era a razão do endereço ser o do "Souto Sardoal". Lembro-me de ainda criança ter questionado a minha avó Maria Joaquina, sobre o absurdo daquele endereço usado pelos CTT, do “ Souto – Sardoal”, quando a freguesia pertencia a Abrantes. E ouvir de alguns soutenses outras conversas, caprichando no que consideravam ser o procedimento legal, que mais os motivava para o uso de outro endereço: “ Souto-Abrantes”.
O que ganhavam com isso era a demora de mais um dia no trajecto da carta expedida. Não faltava quem usasse esse exemplo para demonstrar como até a nível de correspondência, o facto de se pertencer a Abrantes, só trazia desvantagens...
E a minha avó que parecia ter sempre uma história para contar a propósito de tudo, logo desfiou mais uma ilustração romanceada para explicar a razão de o Souto ter escapado à jurisdição administrativa do Sardoal, de que estava mais perto e acabar dentro do concelho de Abrantes.
A “história” vinha do princípio do mundo, quando ainda havia muitas terras por demarcar entre o rio Zêzere e o rio Tejo. Os povos do Sardoal e os de Abrantes terão acatado a determinação do Corregedor, quanto à forma de demarcarem as terras a norte de Abrantes, e acabarem desse modo com as demandas em que vinham envolvendo, pela disputa das terras do norte.
Por vontade do Corregedor de Tomar, ao romper do dia, assinalado pelo primeiro cantar do galo, - nesse tempoo ainda não haveria relógio - com os juízes em cada uma das terras para a respectiva verificação, ficara acordado, que um punhado de abrantinos partiriam da vila de Abrantes e outros tantos partiriam do Sardoal em direcção ao norte, munidos de estacas e bandeirolas para irem assinalando as terras de cada um, à medida que as atingissem e descobrissem.
No dizer da minha avó, os de Abrantes sempre foram muito “tunantes” ( trampolineiros). Curiosa a observação da minha avó, que eu muitos anos depois haveria de confirmar, através de outras andanças bem manhosas. E logo aprontaram mais uma das suas, para arrepiarem caminho em direcção à tomada das terras que por sinal, até ficavam mais perto do Sardoal.
Como o horário de partida, na falta de relógios naqueles tempos pretéritos, se fazia pelo cantar do galo, havia que arranjar forma de "obrigar" os galos a cantarem mais cedo em Abrantes, do que no Sardoal. E se bem o pensaram, melhor o fizeram. Naquela noite, alguns abrantinos trataram de enfiar um dente de alho no cu dos galos. Aflitos com o ardor do fruto daquela bolbosa, os galos mal passava da meia-noite desataram a cantar de forma furibunda, que até se temeu, que o barulho chegasse a ser ouvido no Sardoal. Foi quanto bastou para ser dado o sinal de partida à equipa de Abrantes rumo à "conquista das terras do norte".
Conta-se que só não desceram com as bandeirolas a marcar os terrenos mais encostados ao Sardoal, porque temeram acordar os sardoalenses. E foi assim que quando os sardoalenses acordaram com o cantar dos seus galos, já os abrantinos passavam das Fontes e chegavam à ribeira do Codes. O concelho de Abrantes ficou assim muito maior do que o concelho do Sardoal...
