A SOCIEDADE RECREATIVA DO SOUTO
A Sociedade Recreativa do Souto foi uma ideia que começou a germinar no início da década de 1960, fruto da indisponibilidade da cedência do salão da recém-criada Casa do Povo do Souto, ligada a pessoas mais idosas e pouco abertas para a realização de bailes, facto que desapontou os jovens da altura.
Uma geração de jovens onde se incluía o Manuel Lopes Amaro, o irmão, Carlos Amaro, o Joaquim Marques, o Silvino Traquina, ( irmão do autor do livro “ O Souto, uma cultura, um povo”, Manuel Batista Traquina), e ainda João Pimenta Batista, Manuel Pires, Flamino André, João Conceição Rosa, João Conceição Pedro, Armando Batista, e tantos outros.
Portanto, quando se aponta a data fundacional, de 29 de Outubro de 1969, apenas se está a dar conta da escritura pública lavrada no 8º Cartório Notarial de Lisboa, ali à Rua da Horta Seca, ao Chiado, onde intervieram na dita escritura de fundação da Sociedade Recreativa, os quatro primeiros sócios: Adelino Amélia Branco, José António Pico, Manuel António Pico e Manuel Lopes Amaro.
O autor deste blogue pode afiançar tudo isso, pois pertenceu desde 1966, à Comissão de Festas do Souto, que tiveram por objectivo a reconstituição dessa ideia de colectividade uma meia dúzia de anos antes.
Não corresponde à verdade, a afirmação de Manuel Batista Traquina, na página e meia em que resume toda a sua “história da Sociedade Recreativa do Souto”, - onde nem sequer incluiu a respectiva foto da sede, o que não deixa de ser sintomático - nomeadamente quando aponta a mudança da construção da sede do Largo anexo à Escola Primária, na Portelinha, porque segundo diz “ atempadamente, os fundadores se aperceberam da falta de espaço, porque era necessário construir também um parque desportivo”. Nada mais errado!
O espaço desportivo podia continuar a ser no largo público frente ao portão da Casa Grande e anexo ao recreio da dita escola, conforme doação da dita família.
E o espaço do primitivo projecto, que elaborei um pré-esboço só não foi por diante porque uma vez entregue o projecto, a Câmara Municipal indeferiram o mesmo, alegando que a dita implantação ( onde hoje estão construídas duas moradias geminadas, do João Natálio e do cunhado, emigrantes na Suíça) não respeitava o distanciamento mínimo de, salvo erro 12 metros, de afastamento do espaço da escola.
Esse indeferimento constituiu um tremendo contratempo. Não fosse a persistência dos fundadores e tudo teria ruído à nascença. Acontecia assim, com tudo, naquela terra.
Impossibilitados daquela edificação bem central – por ironia, a escola já leva vários anos como encerrada e o espaço enorme do recreio lá continua abandonado - logo se procuraram novas alternativas. Surgiu uma de duas hipóteses, no Cimo das Vinhas frente à Quinta do Sr. Joaquim Gomes ou mais à frente no Cardeal, um local onde se dizia que em tempos lá costumava passar os dias de férias um Cardeal, sentado tranquilamente, a colher a fresquidão da brisa do rio Zêzere, quando queria alternar o ambiente da corte em férias de verão, lá mais a norte, em Vila de Rei.
O local não agradou a muitos dos dirigentes, que temiam ver a colectividade demasiado isolada e muito afastada do adro. Hoje, talvez essa ideia tivesse melhores pernas para ir por diante. Mas as contingências da história têm destas limitações muito atendíveis.
Foi então quando surgiu a única disponibilidade de cedência de um terreno de pinhal, com cerca de um hectare, herdado pelo meu avô Martinho Baptista de seu pai e de seu avô, João Rodrigues Baptista – vice-presidente da Junta no século XIX – e se supõe tenha feito parte da herança do tio padre, o Reverendo José dos Santos Baptista.
As vantagens deste terreno eram por demais evidentes. Em linha recta estava a pouco mais de 150 metros do adro, num ponto bem centrado com toda a povoação do Souto e como tinha perto de um hectare, logo indiquei a implantação de um campo de futebol juntamente com o ante-projecto que seguiu para o atelier dos arquitectos da importante firma J. Pimenta, cujos sócios principais João Pimenta e seu irmão Luís Pimenta deram generosos contributos à colectividade.
Lembro-me de o arquitecto da empresa ter escrito a lápis na planta da implantação um irónico ponto de interrogação à frente das palavras da legenda “ Campo de Futebol”, desdenhando do curto espaço que eu desenhara, para o efeito. Enfim, os arquitectos sempre se revelaram de espírito pouco prático e ainda menos ambicioso…
Claro que o terreno indicado para o campo de futebol era pequeno para o efeito, aí uns 60 m x 45 m. Todavia, havia mais terrenos à volta. É certo, que do lado da parcela do hectare do avô do Manuel B.Traquina, não veio nenhuma oferta. Mas surgiu dso topo sul, dos pinhais dos irmãos Mário Pedro Lourenço e do João Pedro Lourenço, dois grandes entusiastas do futebol e ferverosos adeptos do Benfica. O Mário, cobrador da Carris, foi sócio do Benfica e em part-time vendedor de bebidas no velho Estádio da Luz, com quem algumas vezes confraternizei juntamente, com outros soutenses, sempre desejosos de bebermos mais uma cerveja na sua companhia, já mais no final dos jogos.
A título de compensação pelo hectare cedido, o meu avô recebeu 29 mil escudos e os dois irmãos receberam cinco mil escudos cada um. Os 29 contos de réis foram pagos com os lucros das festas de 1966 a 1969. Os outros dez contos foram oferecidos pelo presidente da direcção Adelino Amélia Branco.
Remetido à Câmara Municipal e tendo como proveniência o atelier da firma J. Pimenta, - onde o presidente da Câmara, Dr. Agostinho Batista, médico na cidade e natural de Alvega era, salvo erro, presidente da Assembleia-Geral de accionistas, ou pelo menos membro dos corpos sociais da firma J. Pimenta, SA – não tardou que as obras arrancassem.
O lançamento da primeira pedra ocorreu num sábado de Pascoela, no momento em que já se estava a realizar mais um jogo de futebol no campo primitivo, entre o Souto e Bioucas. À última hora, eu que era capitão da equipa e presidente da Assembleia-Geral da colectividade acabei por ser chamado à pressa, uns minutos antes do jogo, porque o Sr. José da Silva, dirigente da Associação das Colectividades e Associações de Recreio e Cultura, à época, estando presente – por coincidência estava casado com uma senhora do Souto, irmã do Adelino Branco - logo lembrou alguns pormenores do protocolo oficial, onde caberia ao presidente da assembleia receber o presidente da Câmara.
Os jogadores da equipa do Souto não gostaram nada dessa ideia e eu próprio com dezassete ou dezoito anos também não me agradava nada ter que deixar de jogar para ir cumprimentar e acompanhar o presidente da Câmara.
Pior fiquei, quando me lembraram que tinha que estar de fato e casaco e gravata. Nem tinha gravata na casa do Souto. O fato ainda tinha ali à mão no Souto. Recebi uma gravata de um tio meu e lá fui esperar o presidente para o cruzamento da Srª da Boa Viagem, para depois virmos todos a pé, até à Sociedade Recreativa, com uma paragem no adro.
O lançamento da primeira pedra consistia em introduzir um pergaminho onde escrevi com tinta-da-china uns dizeres alusivos ao acto e à presença do presidente da Câmara, que li ali mesmo em público.
O Manuel Traquina no seu livro ainda teve a suprema lata de fazer uma chamada de rodapé, para escrever isto: “Esta pedra [ numa alusão à 1ª pedra ] encontra-se à entrada da porta norte e tem dentro um documento em pergaminho com algumas notas escritas.”
Não acredito que o Manuel Traquina estivesse lá naquele dia, pois era muito pouco dado àqueles encontros. Portanto, aquela revelação só podia ter sido “copiada” de um texto que eu próprio já havia escrito no Jornal Correio Lisboa Zêzere, cinco anos antes da publicação do livro. A falta de menção do autor dessa passagem, só revela a triste e fraca isenção de quem se propôs escrever um livro de história local, não cedendo à triste e cínica tentação de omitir factos. Resta saber, se esses “apagões” foram também sugeridos pelos editores e revisores da obra.
No início do enchimento dos caboucos, sabemos que a areia e o cascalho veio da Camionagem Mendes, graciosamente e o cimento foi vendido pela dita firma. Mas foi interessante saber que a camioneta do Sr. Cândido José Martins numa viagem de regresso de Lisboa, foi a umas tantas obras de uns soutenses recolher muitos materiais de construção.
Lá está a Sociedade Recreativa, com um palco e uma boca de cena, propostos no meu ante-projecto, as casas de banho regulamentares, a sala de direcção e a sala da secretaria, um espaço de dança e um espaço mais elevado atrás para os espectadores se sentarem. Aquele espaço concluído em 1972/73, acabou por se revelar o grande “auditório” do Souto, no período pós 25 de Abril.
Foi ainda determinante para fixar ali à sua volta a instalação da Casa do Povo, o Centro de Dia e os depósitos da CIDAS, a cooperativa de rega de que iremos falar mais adiante. Não fosse o arranque iniciado com a Sociedade Recreativa, talvez não se conseguisse mais implantar essas outras instituições.
Acresce, o facto de ter sido o industrial João Pimenta quem impôs aquela rua pagar inteiramente por si, a ligar aquele local com o adro. Aquela que viria a ser a Rua J. Pimenta, por proposta do vereador João Baptista Pico, em sessão de Agosto de 2002 foi uma reposição inteiramente justificada da verdade histórica e do mérito que faltava reconhecer publicamente ao grande benemérito, o soutense João Pimenta.
Ele pagou o terreno da implantação da Rua ao Sr. Martinho Branco e ao Sr. Manuel dos Santos “ o ti Curto”, avô do Manuel Traquina – creio que foram 5 ou dez contos a cada um - e ainda a edificação de um muro de vedação em tijolo, rebocado e caiado, com um metro de altura, e de cada lado dessa rua, ao longo dos cerca de 100 metros de comprimento, da mesma.
Anote-se a cobardia da junta quando na toponímia de 1985 ou 1986 apontou o nome daquela rua como a “Rua da Sociedade Recreativa”. E a ironia do desfecho daquela placa para “acalmar” a animosidade do presidente de junta da época ( Joaquim André do PS), que fez questão de lá constar na nova placa este texto: “ Rua J. Pimenta – (antiga Rua da Sociedade Recreativa)”.
Como se o maior benemérito da Sociedade Recreativa e da rua em si, tivesse que ficar num lugar secundário, na própria rua que planeou, executou e ofereceu do seu bolso, ao povo do Souto. Inenarrável…
Um dia os vindouros irão perceber toda a história, e entender como os “apagões” não passavam de propósitos eivados de desespero e mau carácter.
Isto tinha que ser escrito!