NOTAS À MARGEM DA FUNDAÇÃO DA SOCIEDADE RECREATIVA DO SOUTO
O nome de Sociedade Recreativa do Souto, o seu emblema e nomeadamente o modelo de cartões de sócios já existiam nos inícios da década de 1960. Foram iniciativas de Manuel Amaro (falecido), do Carlos Amaro, do Joaquim Marques, e de Silvino Traquina, entre outros. Escolho estes quatro exemplos de jovens que marcaram a vida soutense no início da década de 1960, porque todos eles tinham em comum o facto de se terem alistado como voluntários aos 17 ou 18 anos, na Força Aérea, onde estiveram alguns anos, tendo apenas o Joaquim Marques prosseguido a carreira ( hoje, aposentado como major ou tenente coronel).
E é deste grupo que sai a última das comissões de festeiros, já no início da década de 1970, que fecha o ciclo de festeiros empenhados na construção de uma sede de colectividade, no fundo um espaço para bailes e espectáculos com tecto e dignidade.
Entre 1969 e 1972, os bailes da Páscoa, do Natal e Ano Novo fizeram-se primeiro sob uma tenda de oleados alugados, no local da que fora a casa da Ti Mariana, onde esteve para ser feita a primeira sede, cujo projecto foi indeferido pela CMA em razão da proximidade à Escola. Um preconceito fruto da época e muito típico das leis do Estado Novo. As crianças não podiam passar por perto das colectividades e outras associações…
O entendimento entre Adelino Branco e Manuel Amaro fez a refundação em 1969, quando já se trabalhava desde 1966 nas Comissões de Festas de Verão para se construir uma colectividade. Essa refundação como a recuperação do nome anterior da Sociedade Recreativa, já augurava novos ventos de mudança de mentalidades. Não é por acaso, que as reuniões da Sociedade Recreativa se realizavam todas as quartas-feiras à noite na Damaia, no escritório da firma Branco& Cândido,Lda. As pessoas ligadas à direcção iam, por regra, todos os fins de semana ao Souto. Porém, durante a semana trabalhavam por Lisboa, onde viviam, na sua maioria na região da Amadora, Damaia e Benfica.
Essencialmente, há que sublinhar que a Sociedade Recreativa era uma obra de envergadura para o tempo, mas que só podia ser realizada pelas pessoas portadoras de outro espírito de iniciativa, mais aberto e mais fraterno. Era uma obra conotada como uma obra dos de Lisboa. E isso deixava marcas de indisfarçado despeito, entre os que continuavam a viver na terra, se bem que a obra estivesse – como sempre esteve, salvo raras excepções – aberta a todos os soutenses.
Essa cisão dos de Lisboa com os da terra era um pretexto para alimentar as polémicas locais eivadas de muitas rivalidades. Mas não deixava de ser também uma forma de vincar algumas clivagens entre duas correntes de mentalidades, como era expectável numa comunidade de migrações tão marcantes, a par de outros grupos mais arreigados à terra que viam da parte dos outros que partiam da terra, como que uma espécie de abandono e traição à terra.
Curiosamente, o poder local autárquico emanado do 25 de Abril irá acabar por explorar muito essa situação, muito facilitada pela cisão partidária que se operou entre todos. A partir do 25 de Abril muito dificilmente se congregaram esforços, que antes pareciam mais fáceis de obter, porque não mais se conseguiu chegar ao sentimento mais puro e mais nobre de soutense, desligado da carga político partidária sobejamente conhecida em cada um. Talvez a excepção à regra tenha apenas estado com a CIDAS, a cooperativa de rega, como iremos ver adiante.
O desenvolvimento das iniciativas desportivas partiram dum trio inicial do Jacinto Carpinteiro, João Pico e João Pimenta Batista, a que se juntou mais tarde Rui Pimenta, que constituíam a “direcção” da Secção Desportiva da Sociedade Recreativa, que trabalhava ao lado da direcção da própria colectividade. Todos estes quatro dirigentes viviam na região de Lisboa. Não obstante, foi com eles que se formaram as equipas de futebol de Bioucas, Carvalhal, Atalaia, Carril, Ribeira e Maxial, que foram disputando os jogos no campo da Sociedade Recreativa do Souto, em torneios durante a Páscoa, o verão e o Natal e Ano Novo.
A equipa da Ribeira acabou por nunca ter comparecido, o que se percebia pelas dificuldades de entendimento a nível de festas de verão, que continuavam a deixar marcas de cisão profundas.
O primeiro jogo, no dia de Todos os Santos de 1970, foi realizado entre a equipa do Souto e a de Carvalhal, em que a equipa do Souto, é a que se vê numa foto no cabeçalho deste blog.
Mas fizeram furor os embates entre as equipas de Bioucas e do Maxial, talvez as melhores equipas intervenientes, apesar da boa réplica da equipa do Carvalhal.
Após o sucesso dos primeiros jogos que culminaram com a chegada da equipa do Maxial num autocarro apinhado de jogadores e adeptos da equipa denominada os “Cristas do Maxial” e muitos carros particulares, a direcção empenhou-se mais na área desportiva e com a ajuda da firma J. Pimenta e o empenho directo do seu sócio Luís Pimenta, tivemos a terraplanagem do campo de futebol virado noutro sentido para aproveitar as cedências oferecidas para sul, nos terrenos dos irmãos Mário e João Pedro Lourenço. A empresa oferecera ainda as balizas metálicas substituindo as improvizadas traves de pinheiro serradas pelo Vicente Francisco e pregados pelo José Pico, Jacinto Carpinteiro e o João Conceição Rosa, horas antes do 1º jogo em 1970. O desnível desse campo entre a lateral esquerda e a lateral direita chegava aos 45 cm, o que diz bem da improvisação do campo da bola, onde ainda apareciam alguns cepos de pinheiro pelo meio…