A MATANÇA do PORCO
A criação e engorda do porco, - comprado em Janeiro, como leitão desmamado – era uma das fontes de receita mais importantes na economia rural das famílias e que nos últimos anos se foi mantendo viva como manifestação cultural e recriação dos tempos.
A esse propósito, todos os vendedores de porcos não se cansavam de insistirem com os homens do Souto. E quando não era no adro, lá passavam nesse dia ou no dia seguinte pelas ruas do Souto e povoações vizinhas. Os chefes de família não desdenhavam nunca da oferta, pois desejavam o mais cedo possível colocar no seu quintal o bacorinho em engorda, para aproveitamento das hortaliças e os restos da comida que compunham a chamada "lavadura". Conta-se que certa mulher, ao que julgo de Bioucas, não apreciava muito por aí além a idéia de ter porcos no curral. E uma vez no adro, com o marido a pegar no bacorinho para escolher o melhor e lhe tomar o peso, para além de outras características da sua carcaça, o bom homem terá sido admoestado furiosamente pela esposa. Foi de deixar toda a gente a rir à gargalhada, enquanto a mulher gritava para o marido tal e qual assim:
- " Larga o porco Manel... em casa é que tu as pagas! - e o pobre do marido meio acabrunhado lá ia insistindo para que a mulher condescendesse na compra do bacorinho e a esposa lá voltava ao mesmo:
- " Larga o porco Manel! Ai, ai, em casa é que tu as pagas, vais ver...!"
- " Larga o porco Manel... em casa é que tu as pagas! - e o pobre do marido meio acabrunhado lá ia insistindo para que a mulher condescendesse na compra do bacorinho e a esposa lá voltava ao mesmo:
- " Larga o porco Manel! Ai, ai, em casa é que tu as pagas, vais ver...!"
A partir de 1986 por um lado com a chegada das directivas comunitárias e o rigor fundamentalista dos burocratas, sempre prontos a embandeirar do extermínio cultural e económico do mundo rural, e depois com a prepotência das brigadas da ASAE, as pessoas foram sendo impedidas de dar continuidade a esse cerimonial muito arreigado nas terras com as matanças do porco.
Hoje, os jovens já nem saberão ao certo os rituais que compunham a matança do porco. Como não saberão muitas das receitas do tempero dos enchidos, do salgar das carnes guardadas na arca e da ementa que percorria os dois dias da matança: mais propriamente o primeiro dia como matança e o segundo dia na desmancha do porco.
Em Janeiro, o adro do Souto recolhia em um ou dois cantos do seu espaço, mesmo depois de alcatroado, uns pequenos currais improvisados, onde os vendedores de porcos lá expunham os seus leitões comprados aos criadores de “marrãs” nos estábulos de Ourém, da Sertã, de Ferreira de Zêzere e de Cernache.
Os vendedores, para lá da licença que possuíam para a revenda tinham ainda que pagar o “terrado” pela exposição que faziam no adro. Lá estava o “Tio” Laurindo, do Chão da Alagoa, como encarregado da Junta para essas cobranças, a passar o seu talão e a anotar no canhoto o nome e a receita e a natureza dessa ocupação. Era um posto de trabalho, cuja fraca remuneração, sempre ajudava a um complemento para a sua subsistência, da mulher e dos filhos, uma prole bem numerosa, que segundo penso, somavam cinco filhos, duas raparigas (a Laurinda e a Benvinda, minha amiga de infância e curiosamente, amamentada pela minha mãe, pois éramos da mesma idade, e três rapazes (o Vicente, o João e o Joaquim).
O Joaquim que casou para Carvalhal é um bom exemplo quanto à continuidade da tradição das matanças, pois até há uns anos atrás, tinha por hábito matar dois porcos que comprava aos vizinhos, que os criavam, para nesse dia de matança juntar uns familiares, mais uns amigos de fora da terra, com quem partilhava os enchidos e a metade do porco ou dos porcos.
Portanto, mais uma fonte de receita para os vizinhos que criavam os porcos e para ele e os amigos, que dessa forma sempre ajudavam a economia da vida local. Coisas que os burocratas de Bruxelas e os complacentes governantes e autarcas locais nunca quiseram entender e muito menos perceber como estavam estupidamente, a esvaziar o interior do país e a vida no mundo rural.
Ainda hoje, não entendem muito bem, pese já se ter revogado em parte essas limitações à matança. Pena, que entretanto, se tenha caído em desuso e com esta crise, nunca se sabe quando regressarão à terra, tamanhas práticas perdidas ou já meias desconhecidas, das gerações mais novas.

