«O ponto que eu quero salientar é um ponto que mencionei en passant no post anterior. É o de que no pensamento alemão, de inspiração luterana, o dinheiro é sempre o motivo que vai gerar a divisão da comunidade, a oposição e depois a luta, que acabará na sua destruição. Foi assim também que eles fizeram com a Igreja Católica no século XVI e, mais recentemente, com os judeus.
Eu gosto às vezes de imaginar como seria se o Karl Marx tivesse nascido em Viseu ou em alguma outra cidade de um país católico, com o seu fortíssimo sentimento de comunidade. Como é que as pessoas reagiriam à medida que ele fosse contando na família, e no grupo dos seus amigos, o desenvolvimento das suas ideias - ideias que acabam por pôr todos à bulha?
Estou a imaginá-lo num café em Viseu, à volta de uma mesa, um Sábado à tarde, depois de pedir desculpa aos amigos por nos últimos meses não ter aparecido por andar muito ocupado em casa a escrever um livro. E, em seguida, a expôr as suas ideias, enquanto os amigos o ouvem calados, uns de olhos abertos, outros de sobrolho franzido.
Quando termina, faz-se silêncio. Até que um dos amigos se levanta, põe-lhe o braço por cima do ombro, e resolve quebrar o silêncio. Fita-o nos olhos com um ar muito sério, fala pausada mas firmemente, parece mastigar as palavras. Diz-lhe:
- "Oh Carlos ... tu queres um conselho de amigo? ... Deixa-te mas é dessas merdas, pá ... e anda mas é beber um copo co'a gente".
As ideias do [Carlos ] Marx, como as de todo o pensamento filosófico alemão desde o Kant, não tinham a mínima chance de florescer em Portugal ou em qualquer país católico. Aquilo que é curioso é que a maior parte dos marxistas que ainda restam no mundo ocidental, estão sobretudo concentrados nos países católicos. A razão é o carácter universal desta cultura. Nós temos de ter cá disso, mesmo quando isso já se tornou obsoleto no seu próprio país de origem. E, mesmo daqui por muitos séculos, quando o Marx estiver totalmente esquecido, existirá uma excepção, haverá alguém que o relembre - mas esse alguém terá, de certeza, nascido e sido criado num país de cultura católica.
É necessário dar sinais aos alemães de que eles têm de pagar por aquilo que querem, mas não sabem fazer - uma Comunidade. E têm de pagar a quem sabe - os países católicos, sumariamente os PIGS. E que o pagamento é em dinheiro - o mesmo dinheiro com que os PIGS lhes pagam os Mercedes e os BMW's que eles sabem fazer. O mesmo dinheiro que constitui o excedente comercial da Alemanha e o défice externo dos PIGS, o qual é a fonte de todas as suas dificuldades presentes.
Agora que os alemães assumiram definitivamente o controlo da UE - passando por cima de todas as instituições comunitárias - é preciso ensinar-lhes o know-how comunitário básico, algumas das regras essenciais para se construir uma comunidade, porque eles não sabem. E a mais importante de todas é a de que, numa comunidade, não se discutem questões de dinheiro em público. Isso, se tem de se discutir, é em privado, com as portas fechadas.
Ora, é este erro básico que os alemães já estão a cometer, com a sua insistência, senão mesmo a sua obsessão, na questão financeira da Grécia, em primeiro lugar, e na de Portugal, Irlanda, Espanha e Itália, depois. Até na comunidade mais elementar que é a da família se sabe que quando o homem e a mulher se põem a discutir questões de dinheiro à frente dos filhos, mais ainda na praça pública, o resultado inevitável é o divórcio e, portanto, a destruição da comunidade.
Os alemães, por força da sua cultura, não só não sabem construir comunidades, como a sua propensão cultural é para as destruir e, com a sua obsessão nas questões do dinheiro, é isso que eles se preparam para fazer a mais uma - a Comunidade Europeia ...posted by Perdro Arroja, no blog Portugal Contemporâneo