O gene empreendedor e criativo
Ainda durante os anos 1950/60, as oportunidades de negócio pareciam promissoras para os construtores, que pelos vistos ainda eram tidos como pessoas sérias e trabalhadoras, ao ponto de suscitarem o interesse dos bem informados merceeiros e outros perspicazes comerciantes desejosos de se associarem a eles na construção de um prédio para rendimento. Um aspecto deveras importante, que vem retirar seriedade aos juízos preconceituosos imputados malevolamente, aos construtores, como gente ignorante e pouco fiável.
Mas a saga empreendedora dos homens conheciam outra vertente no ramo feminino, através do trabalho empenhado das mulheres nas aldeias que na ausência dos homens chamavam a si, todas as responsabilidades na terra.
O gene empreendedor nas mulheres, surgiu na construção da casa e no amanhar as terras – e ainda num outro trabalho suplementar e inovador: a tecelagem. Foi esse gene empreendedor que as levou a montar os teares, fazendo-se tecedeiras.
Não existiam outras mulheres assim, nas redondezas. Nas casas o bater da queixa do tear, esse braço de vai vem que apertava cada fio da lançadeira para ajustar com força a urdidura da coberta de lã, das colchas e das passadeiras, lá soava e ecoava todo o santo dia.
Havia as mulheres que recebiam e cuidavam das encomendas de fora da terra e distribuíam as tarefas às outras tecedeiras, que nem sabiam ao certo para onde seguiam os seus trabalhos. Chegado o fim das tarefas, recolhiam de umas e outras as teias que levavam para as clientes, nos concelhos vizinhos. Este negócio empreendedor revelava especial acervo junto das mulheres do Souto, e em parte na Aldeia de Mato. Nesta última freguesia o chamamento do pinhal era mais apelativo para as mulheres. Do lado da Serra de Tomar a evolução das famílias mais fortalecidas financeiramente, não as levou à tecelagem. Aproveitaram as suas posses no amanho das terras mais ricas e adquirindo, já como boas clientes, as mantas e as tapeçarias elaboradas na margem oposta.
No conjunto, percebia-se bem o gene Templário, de mistura com a ambição de antigos garimpeiros que vieram atrás das pepitas de ouro arrastadas pela corrente das águas contra as margens do Zêzere. Um gene aventureiro e empreendedor, a juntar ao outro, mais temerário ainda, que gerou os prédios de vários andares, por toda a Grande Lisboa.
Bastava ter-se nascido homem naquela terra, e logo o trabalho nas obras era a sua carta de alforria para quem havia nascido, onde desceram os Monges Construtores, com a mesma cruz que todos carregaram. Os monges, pelo golpe cruel de Filipe o Belo desferido numa sexta-feira dia treze, de um mês de Outubro, em 1307. Aos construtores das avenidas novas, as sucessivas crises financeiras e o despeito alfacinha, somado ao escárnio público configuravam a segunda cruz, tão cruel quanto a primeira.
As jovens mulheres na terra erguiam a sua casa com a ajuda dos ganhos no tear e dos ordenados dos homens lá por Lisboa. A separação do casal predominou, enquanto a terra natal resistiu à soberba da albufeira. Quando esta submergiu as terras, tornou-se por demais evidente, para todos, homens e mulheres, qual seria a partir de então, o caminho cruel e apertado que assinalava o futuro: a única tábua de salvação apontava para Lisboa.
Então, na capital, mulheres e crianças tomavam lugar em partes de casa e as mulheres instruídas com o exame da 3ª classe podiam almejar a uma casa de porteira. Lisboa na riqueza da sua versatilidade, acolhia famílias de todas as classes sociais, desde o doutor ao operário. Num tempo em que o empenho construtivo não cedia tanto às restrições ambientais, mescladas de alguma demagogia posterior, diabolizando o betão.
Se fosse permitida alguma serenidade nessa discussão, talvez que os 60 m2 de habitação, como média convencionada e necessária para o abrigo de cada cidadão pudesse chegar a outro entendimento mais sério, de que os dez milhões de portugueses, todos dispostos muito juntinhos, uns a seguir aos outros, afinal não conseguiam ocupar com o betão dos 60 m2 de suas casas, mais do que uns escassos 600 km2, que são menos de 1% dos 89.000 km2 da área de Portugal. O que mostra à evidência, quanta intolerância preconceituosa teve que ser introduzida abusivamente, para manipular os fracos argumentos ambientalistas, que só o oportunismo, a demagogia e a cegueira ideológica de alguns, tem permitido essa cruel deturpação dos factos.
Mais bizarra conclusão se poderia obter, quando se desse conta com toda a tranquilidade que esses 600 km2 incluíam alguns dos muitos estimáveis cascos históricos das cidades e vilas, que paradoxalmente, ocupam boa parte dos solos de interdição ambiental, nos leitos ribeirinhos e nas reservas ecológicas, sem que se oiçam vozes a insurgirem-se contra essa situação, ou a exigir a demolição de qualquer parcela dos cascos históricos de vilas e cidades, por ocuparem espaços da reserva ambiental. Qualquer demolição nesses espaços é sempre encarada como anti-ambientalista e perversa.
Pegando num bom exemplo universal, talvez que nenhum dos admiradores da fascinante Casa da Cascata, do arquitecto americano Franck Loydd Whrigth, ainda tenha admitido, que à luz das actuais regras do ordenamento ambiental, tal obra, muito provavelmente, já não poderia ser mais construída. E consequentemente, nunca a humanidade a teria podido admirar.
O mundo foi avançando, mas não deixam de persistir estas estranhas e bizarras e tenebrosas contradições. De tantas contradições, dir-se-iam, verdadeiros oximoros!
Entretanto, a má vontade contra as construções ia alastrando, à medida que a qualidade das habitações não deixava de evoluir. E no meio destes paradoxos, os construtores tudo iam suportando.
Atrás de novos negócios no imobiliário surgiram as novas plumagens exuberantes, deixando o triste e sóbrio fato-macaco cada vez mais escondido ou afastado, diante da promoção do casaco assertoado, agora a condizer com o chapéu escuro na cabeça, em lugar do boné ou da boina provinciana.
Escondido o fato-macaco, nem por isso se deixava de se salientar o avolumar da carteira no peitilho, um sinal quase obsceno. Imagem fatal. Sentia-se. Não desgrudou mais.
O quadro do leito do rio com o cerco dos predadores voltava a repetir-se. Só que desta vez, não havia mais por perto, aquela encosta soalheira de Tomar, para os proteger. As sete colinas da capital do império, dito multirracial acabaram por se revelar madrastas para os patos bravos. E pelas colinas só ecoavam preconceitos, de quem resumia a construção a um abominável negócio de patos bravos analfabetos.
Nunca a história havia registado feitos tão rápidos na ascensão social daquela Lisboa. Todavia, pesavam mais, os laivos de miséria na busca da sopa do Sidónio. O crescimento de mais prédios novos fazia os outros parecerem mais pequenos, mais feios e mais velhos. As melhores condições de habitabilidade nas casas novas, não deixavam de marcar muitos dos excluídos dos prédios mais antigos e ainda das muitas barracas que irrompiam nos descampados que cercavam a cidade.
Os contrastes eram por demais evidentes. Por muito mais numerosas que fossem as casas de banho, com mais peças sanitárias, com melhores águas correntes, com melhor iluminação, dispondo de cozinhas mais airosas, entradas de prédios mais luminosas - com as modernas portas de entradas dos prédios em armação metálica ornada de alumínio dourado e muitos vidros transparentes - havia sempre muita gente arredada da fruição dessa mesma modernidade. O sucesso carregava um ónus de miséria à sua volta.
Pese todos esses desencontros, ao menos que os construtores não desistissem desse forte sentimento do dever e dessa inabalável paixão capaz de fazer das fraquezas força, levando-os a arriscarem os seus bens próprios para suporte e garantia dos créditos necessários para a construção das casas alheias. E vendo bem, muitas das casas antigas e das barracas mantinham vida no seu interior por força do trabalho pago nas obras.
Obras, cujas garantias hipotecárias exigiam os haveres arrolados numa longa vida de trabalho, que remontava ao tempo dos avós dos próprios construtores. Porém, antes que todas essas generosas virtudes pudessem comover a opinião agreste, de meia Lisboa, logo um ou outro, exibia numa esquina a condução de um carro novo, diante de quem ainda tinha bem presente na memória, as calças remendadas no cu, desse mesmo construtor quando desembarcou a primeira vez em Santa Apolónia.
Choque brutal. Ninguém mais calava os lisboetas. Morria ali qualquer reconhecimento mais expectável de gratidão pelos abrigos construídos por esses mesmos mestres pedreiros de Tomar e mestres carpinteiros de Abrantes. Ainda pairava o eco das derrocadas atribuídas aos “gaioleiros”.
Os prédios feios, os maus projectos e a burocracia
Apontavam erradamente aos construtores, o mau gosto das fachadas, quando em abono da verdade, essas críticas cabiam por inteiro aos arquitectos e projectistas. Os prédios feios provinham dos maus projectos.
Todavia, os condicionamentos de liberdade, no Estado Novo protegiam melhor esses técnicos das críticas pelos maus desenhos e até dos locais onde os prédios eram implantados, já para não se falar dos ateliers onde se desenhavam os projectos com total promiscuidade entre projectistas e técnicos municipais. Era comum ver-se um técnico municipal a entrar num atelier de arquitectura particular, na esquina mais próxima da câmara municipal, dirigido pelo próprio arquitecto da câmara ou de um colega da câmara do concelho vizinho. O corporativismo servia de desculpa a muita coisa. E não eram estas entradas e saídas que acabavam por ser as mais escrutinadas.
Paradoxalmente, a miopia alfacinha enxergava melhor todo e qualquer construtor que batesse à porta desses ateliers e nunca quem neles trabalhava com segundo emprego, mesmo quando algum pedia reforma antecipada, ou licença sem vencimento, para melhor orientar o trabalho no atelier, antes de o encaminhar aos colegas do serviço autárquico que se ocupavam do deferimento desses projectos.
Os construtores acabaram por ser a presa fácil nas obras, nos media, nos cafés de esquina e até na entrada para esses ateliers, onde iam buscar desenhos para trabalharem. No fundo, todos apontavam para a fúria do rio e ninguém cuidava de ver as margens que mais o apertavam …
E, eis-nos chegados à saga: criar dificuldades, para melhor vender facilidades.
- Estuda, faz-te engenheiro - era o que se ouvia aos mais velhos, nas obras, diante de uma criança ou de um adolescente.
- Não queiras andar nas obras, rapaz! Continua a estudar. Só vem para as obras quem não sabe fazer mais nada…
O pequeno Duarte foi ouvindo estes alertas desde muito novo, nas obras do avô Florêncio e mais tarde nos primeiros prédios erguidos pelo José, seu pai. Iria ser engenheiro um dia.
Ser engenheiro civil ou arquitecto não obrigava a andar todo o dia pelas obras ao frio, ao vento e a manusear o cimento, nem sentir os dedos gretados e ásperos, como dava para perceber num aperto de mão a qualquer operário das obras. Era nessas horas, que o conforto de um gabinete autárquico marcava toda a diferença.
Arquitecto e construtor ao mesmo tempo, foi mais com Vitrúvio, na velha Roma Imperial. Nesse tempo, a burocracia e pior do que isso, o excesso do zelo burocrático, ainda não era usado como expediente ardiloso para subverter a construção à armação da teia jurídica do Código Administrativo e às regras de um RGEU de 1951, nem contribuía tão decisivamente, para a conveniente escassez de projectos aprovados, que tanto favoreceu a vida aos especuladores imobiliários.
Uma coisa era dado ver no vaivém à porta da pastelaria mais próxima da câmara, onde o arquitecto, o engenheiro, o fiscal, o desenhador, o amanuense e os próprios contínuos vinham tomar o pequeno almoço antes de entrarem ao serviço ou mais tarde, a meio da manhã e a meio da tarde para tomarem o café.
Onde antes havia o atelier de esquina associado aos próprios técnicos da câmara, nasciam agora cafés e pastelarias.
Depressa se viu a vantagem de uma palavra na pastelaria face à espera prolongada ao guichet ou às portas dos gabinetes dos técnicos, onde a agenda dos atendimentos levavam semanas ou meses de espera para as marcações de entrevistas.
Esperar na pastelaria, para além de ser mais acolhedor, sempre garantia uma segunda ou terceira passagem dos mesmos técnicos pelo café durante o dia, com sérias hipóteses do encaminhamento para o almoço de trabalho nesse dia ou em data aprazada.
A todo o tempo de início de conversa acudia a observação de que já era tempo de irem almoçar. E como não há almoços grátis, tudo podia acontecer nos chamados almoços de trabalho, muito frequentes, a partir de 1974.
(continua)